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Você sabia que algumas cidades do mundo afundam um pouco a cada ano?

Coluna Papo Verde Com Dani Fumachi

Por Redação

Por Dani Fumachi

Tem um tipo de problema ambiental que quase ninguém percebe, justamente porque ele não faz barulho. Não tem fumaça, não tem sirene, não interrompe o trânsito de um dia para o outro. Ele simplesmente acontece, devagar, debaixo dos nossos pés. E quando a gente percebe, já tem prédio torto, rua cedendo e água aparecendo onde antes não tinha. Algumas cidades do mundo estão afundando.

Existe um processo chamado subsidência, que é o afundamento do solo. E aqui está o ponto mais importante: na maioria dos casos, isso não acontece por acaso. Existe uma relação direta com a forma como usamos os recursos naturais, principalmente a água.

Debaixo da terra existem reservas chamadas aquíferos, que funcionam como grandes esponjas naturais cheias de água. Essa água não serve apenas para abastecimento. Ela também ajuda a sustentar a estrutura do solo. Quando a retirada é maior do que a reposição, esses espaços começam a esvaziar. O solo perde sustentação e se compacta. É como um colchão que vai murchando. Só que, nesse caso, não existe retorno ao estado original.

Na Cidade do México, isso já faz parte da realidade há muito tempo. A cidade foi construída sobre o antigo Lago Texcoco, que foi drenado ao longo dos séculos. O solo continua instável, e o uso intenso de água subterrânea acelerou o problema. Em algumas regiões, o solo afunda mais de 30 centímetros por ano. Com o tempo, isso vira metros. E aí surgem rachaduras, ruas desniveladas, tubulações rompidas e enchentes cada vez mais frequentes.

Quando isso acontece em uma cidade costeira, o cenário se agrava. É o caso de Jacarta, localizada na Indonésia. Lá, o solo afunda rapidamente enquanto o mar avança. Hoje, cerca de 40 por cento da cidade já está abaixo do nível do mar. A resposta foi extrema: o país decidiu mudar sua capital.

Na Veneza, o afundamento é mais lento, mas constante. E quando somado ao aumento do nível do mar, transforma o que antes era exceção em rotina. A água invade com mais frequência, e a cidade vive em permanente estado de adaptação.

Até aqui, pode parecer que estamos falando de realidades distantes. Mas não estamos.

No Brasil, esse processo não é tão visível ainda em escala urbana como nesses exemplos, mas os sinais existem. E eles passam, principalmente, pela forma como exploramos nossos aquíferos.

O Aquífero Guarani, por exemplo, é uma das maiores reservas de água doce do mundo e abastece milhões de pessoas, inclusive em regiões do interior de São Paulo. O problema não é usar essa água. O problema é usar sem controle. Em algumas áreas, a retirada já é maior do que a capacidade natural de reposição, o que pode, ao longo do tempo, levar a processos de rebaixamento do solo.

Em cidades brasileiras que dependem fortemente de água subterrânea, já existem registros de rebaixamento do nível dos aquíferos e impactos indiretos, como aumento no custo de captação, necessidade de perfurações mais profundas e alterações na estabilidade do solo. Pode não ser um cenário de colapso imediato, mas é o início de um processo que, se não for controlado, segue a mesma lógica observada em outras partes do mundo.

Além disso, há outros fatores que aproximam essa realidade de nós. A impermeabilização do solo nas cidades impede a infiltração da água da chuva, dificultando a recarga dos aquíferos. A urbanização acelerada aumenta o consumo de água. E as mudanças climáticas alteram o regime de chuvas, tornando a reposição ainda mais incerta. Tudo isso pressiona o mesmo sistema.

O mais inquietante é que esse tipo de problema não chama atenção de imediato. Ele não gera urgência. Vai acontecendo devagar. E por isso mesmo, vai sendo ignorado. Pequenos sinais aparecem, mas são tratados como algo isolado. Até deixarem de ser.

Cidades não afundam por acaso. Elas afundam quando o equilíbrio entre uso e regeneração é rompido.

E é aqui que a pergunta deixa de ser distante.

O que isso tem a ver com a gente?

Tem a ver com a forma como usamos a água. Com o quanto retiramos e o quanto devolvemos. Com o quanto planejamos, ou não, o crescimento das cidades. O que está acontecendo na Cidade do México ou em Jacarta não é exceção. É um alerta.

Porque o processo é sempre o mesmo. Ele só muda de escala.

E quando o chão começa a ceder, ele não faz escândalo porque já estava avisando há muito tempo.

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