Preparação de novos gestores para o futuro corporativo
Avanço da inteligência artificial exige formação contínua e atenção às responsabilidades humanas na condução das equipes
Foto: iStock/ JLco - Julia Amaral
A preparação de novos gestores envolve decisões sobre como trabalhar em um ambiente cada vez mais influenciado pela inteligência artificial. Ferramentas que produzem relatórios, organizam informações e sugerem soluções já participam da rotina corporativa. Para quem assume uma equipe, isso exige compreender a tecnologia, avaliar suas respostas e orientar as pessoas que a utilizam.
Em análise publicada pela Fundação Dom Cabral, a futurista e professora convidada Sabina Deweik utiliza a expressão "modernidade gasosa" para interpretar esse contexto. A metáfora descreve estruturas, relações e carreiras marcadas pela volatilidade. Na gestão, essa leitura ajuda a discutir como revisar planos e acompanhar mudanças sem perder as referências que orientam o trabalho.
Competências essenciais para os líderes do futuro
Entre as competências técnicas, conhecidas como hard skills, estão análise de dados, gestão financeira e compreensão das possibilidades e dos limites da inteligência artificial (IA). As habilidades comportamentais, ou soft skills, incluem comunicação, escuta e gestão de conflitos. Essas capacidades se complementam quando o gestor precisa interpretar informações e tomar decisões que afetam a equipe.
A participação humana, porém, não assegura automaticamente uma decisão melhor. Uma meta-análise publicada na revista Nature Human Behaviour, em 2024, mostrou que a combinação entre pessoas e IA não superou, em média, o melhor resultado obtido por pessoas ou pela IA trabalhando separadamente. Os resultados variaram conforme a tarefa.
Para a liderança, isso traz uma responsabilidade prática: definir quando utilizar a ferramenta, conferir suas recomendações e considerar informações ausentes da análise. Uma sugestão de distribuição de tarefas, por exemplo, precisa ser confrontada com a experiência e as condições de trabalho da equipe.
Desenvolvimento contínuo e a capacitação de quadros de chefia
Aprender a usar uma ferramenta também é diferente de desenvolver conhecimento. Em estudo publicado na PNAS (Proceedings of the National Academy of Sciences), em 2025, estudantes que utilizaram uma versão de IA sem orientações para preservar o aprendizado melhoraram seu desempenho durante os exercícios, mas tiveram resultados inferiores aos do grupo de controle quando precisaram trabalhar sozinhos. Uma versão orientada a estimular o raciocínio reduziu esse efeito negativo. Realizado no ensino de matemática, o experimento ajuda a distinguir execução assistida de aquisição de competências.
Na formação de gestores, essa distinção pode orientar atividades que exijam justificar decisões, comparar alternativas e discutir resultados. Mentorias, avaliações práticas e devolutivas frequentes estão entre as estratégias utilizadas no desenvolvimento de lideranças. A capacitação contínua permite atualizar conhecimentos e preparar profissionais para novas responsabilidades, com tempo e acompanhamento para aplicar o aprendizado.
Governança e continuidade: o alinhamento com os objetivos da empresa
Esse desenvolvimento precisa estar conectado à governança corporativa, que organiza responsabilidades, decisões e mecanismos de acompanhamento. O planejamento da transição de lideranças inclui critérios claros para a escolha de sucessores, transferência de conhecimento e comunicação das mudanças. Essas medidas ajudam a preservar a estabilidade das operações e a continuidade das decisões durante uma troca de gestão.
Entre as tendências de liderança destacadas pelo portal Você RH está a preparação contínua de sucessores, com avaliação de potencial e formação direcionada às competências necessárias para assumir a gestão.
Nas empresas familiares, o planejamento da sucessão empresarial pode reunir questões de gestão e de patrimônio, que exigem tratamentos próprios e coordenados. A formação de quem assumirá o comando deve acompanhar esse planejamento, considerando os objetivos da organização e as responsabilidades que serão transferidas.