Por que as bananas estão ameaçadas de extinção?
Coluna Papo Verde com Dani Fumachi
Por Dani Fumachi
Você sabia que muitas bananas silvestres têm sementes grandes e duras, com pouca polpa para comer? A fruta macia e praticamente sem sementes que conhecemos é resultado de milhares de anos de cultivo. Ao longo das gerações, agricultores selecionaram e multiplicaram plantas com frutos mais carnosos e fáceis de consumir. Esse processo, chamado domesticação, ajuda a explicar uma ameaça que vamos conhecer na Papo Verde desta semana.
Como muitas variedades cultivadas quase não produzem sementes viáveis, novas bananeiras são obtidas por mudas, incluindo os brotos que nascem junto à planta. Isso permite preservar as características desejadas da fruta. Ao mesmo tempo, gera plantas geneticamente muito parecidas dentro de uma mesma variedade. São os chamados clones. Quando uma doença consegue atacar uma dessas plantas, pode encontrar muitas outras com a mesma vulnerabilidade.
Essa situação preocupa especialmente no caso das bananas do grupo Cavendish, que inclui a nossa banana-nanica e representa cerca de metade da produção mundial. A grande presença de plantas semelhantes ajuda a ampliar os estragos de um fungo que vem destruindo bananais em diferentes países. É daí que surgem as notícias sobre a possível “extinção da banana”. A ameaça às plantações é real, mas afirmar que todas as bananas vão desaparecer é um exagero.
O fungo é conhecido como Fusarium raça 4 tropical, ou R4T. Ele causa uma forma agressiva da murcha de Fusarium, também chamada de mal-do-panamá. Presente no solo, entra pelas raízes e compromete os canais internos que transportam água pela bananeira. É como um encanamento entupido: mesmo com água disponível na terra, a planta não consegue se abastecer adequadamente. As folhas amarelam, murcham e a bananeira pode morrer.
A dificuldade continua mesmo depois da retirada das plantas doentes. O fungo consegue permanecer no solo por décadas, comprometendo o plantio de outras bananeiras suscetíveis naquele terreno. Também pode viajar na terra grudada em calçados, ferramentas e máquinas, além de se espalhar pela água e por mudas contaminadas. Por isso, evitar que ele chegue a uma propriedade é tão importante.
A produção de bananas já enfrentou uma crise parecida. Na primeira metade do século passado, a variedade Gros Michel dominava o comércio internacional. Outra raça do fungo provocou perdas tão graves que o setor passou a substituí-la pelas Cavendish, resistentes àquela forma da doença. A Gros Michel ainda é cultivada, inclusive em pequenas propriedades, mas perdeu o espaço que ocupava no mercado. Agora, a R4T ameaça justamente as bananeiras que ajudaram a superar aquela crise.
No Brasil, a R4T continua classificada pelo Ministério da Agricultura como uma praga ausente do território nacional. A atenção é necessária porque ela já foi registrada em países sul-americanos, como Colômbia, Peru e Venezuela. Além da nanica, variedades importantes para o consumidor brasileiro, como a prata, também são suscetíveis.
A prevenção envolve fiscalização, uso de mudas de origem segura, limpeza de equipamentos e acompanhamento dos bananais. Como ainda não há tratamento capaz de eliminar com segurança o fungo de uma área contaminada, identificar rapidamente os focos e conter sua disseminação são medidas fundamentais para reduzir as perdas.
As pesquisas também trazem alternativas. Testes realizados na Colômbia, em parceria com a Embrapa, confirmaram a resistência das variedades BRS Princesa, do tipo maçã, e BRS Platina, do tipo prata. Esses resultados mostram que existem caminhos para continuar produzindo mesmo diante da doença.
A diversidade das bananeiras volta, assim, ao centro dessa história. Os parentes silvestres, inclusive aqueles com frutos cheios de sementes, podem guardar características úteis para desenvolver variedades resistentes. As mesmas plantas que parecem pouco atraentes para o consumo podem ajudar a proteger as bananas que chegam à nossa mesa.