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Por Redação

O que acontece no seu corpo enquanto você lê esta coluna?

Coluna Papo Verde com Dani Fumachi

Por Redação

Por Dani Fumachi

Antes de começarmos a coluna desta semana, eu gostaria de propor uma pequena experiência a você leitor. Coloque ao seu lado um cronômetro e deixe-o pronto para começar.

Um adulto lê silenciosamente, em média, algumas centenas de palavras por minuto, mas essa velocidade varia bastante entre pessoas e também depende do texto e da atenção. Esta matéria foi pensada para ocupar aproximadamente quatro minutos do seu tempo. Parece pouco, mas, durante esse intervalo, enquanto você acredita estar apenas lendo, seu organismo estará realizando continuamente uma enorme quantidade de processos coordenados, a maioria deles sem chegar à sua consciência.

Comece o cronômetro. Enquanto seus olhos percorrem estas primeiras linhas, a luz refletida pela tela ou pelo papel atravessa a córnea, passa pela pupila e pelo cristalino e chega à retina. Ali, fotorreceptores transformam a energia luminosa em sinais que serão processados pelo sistema nervoso. Seus olhos não deslizam continuamente sobre as palavras: eles alternam pequenas fixações com movimentos rápidos chamados sacadas, enquanto o cérebro coordena para onde o olhar deve ir e transforma padrões visuais em letras, palavras e significado. Ao mesmo tempo, redes envolvidas com linguagem, atenção e memória mantêm parte das informações disponíveis para que você consiga relacionar esta frase à anterior e compreender o sentido do texto.

Enquanto isso, seu coração continua contraindo e relaxando em ciclos regulares. A contração dos ventrículos impulsiona o sangue para os pulmões e para o restante do corpo, enquanto o relaxamento permite que as câmaras cardíacas voltem a se encher. Nos pulmões, o sangue recebe oxigênio e elimina dióxido de carbono; depois, ao circular pelos tecidos, entrega oxigênio às células e recolhe parte do dióxido de carbono produzido pelo metabolismo. Um adulto possui, em média, cerca de cinco litros de sangue circulando, embora esse volume varie conforme tamanho e composição corporal. Esse sangue não é apenas um líquido vermelho: aproximadamente 60% do seu volume é plasma, enquanto o restante é formado principalmente por células vermelhas, além de leucócitos e plaquetas.

Enquanto você lê, seus pulmões também estão trabalhando. A cada inspiração, o diafragma se contrai e desce, aumentando o volume da caixa torácica e favorecendo a entrada de ar. Esse ar percorre as vias respiratórias até chegar aos alvéolos, onde uma barreira extremamente fina separa o ar do sangue. O oxigênio atravessa essa barreira e se liga principalmente à hemoglobina das hemácias; o dióxido de carbono faz o caminho inverso e será eliminado na expiração. Ao mesmo tempo, sensores químicos acompanham alterações relacionadas ao dióxido de carbono e ao equilíbrio ácido-base, ajudando o sistema nervoso a ajustar a ventilação às necessidades do organismo.

Se você estiver lendo esta coluna em São Paulo ou em outra região do Centro-Sul do Brasil, seu corpo pode estar reagindo ao frio enquanto você lê. Quando a temperatura cai, o cérebro percebe a mudança e manda os vasos sanguíneos da pele se contraírem, diminuindo a circulação nas extremidades para evitar a perda de calor. Se o frio aumentar, o organismo também acelera a produção de calor e pode provocar os conhecidos tremores involuntários, que fazem os músculos trabalharem e aumentam o gasto de energia.

Enquanto tudo isso acontece, os rins continuam recebendo sangue e filtrando o plasma. A cada minuto, enormes quantidades de líquido passam pelos glomérulos, mas quase tudo aquilo que é filtrado será posteriormente reabsorvido pelos túbulos renais, permitindo que água, glicose, aminoácidos e eletrólitos necessários ao organismo retornem à circulação. O que finalmente permanece no filtrado dará origem à urina. Os rins, portanto, não funcionam simplesmente como um “filtro”: eles selecionam, recuperam e eliminam substâncias, ajudando a controlar volume de água, concentração de eletrólitos, pressão e equilíbrio ácido-base.

Enquanto isso, sua pressão arterial sobe a cada batimento do coração e diminui entre eles. No frio, os vasos da pele se contraem para conservar calor, o que pode fazer a pressão subir. A glicose, por sua vez, circula no sangue e é usada pelas células como combustível, inclusive pelo seu cérebro enquanto você lê.

E tem uma coisa acontecendo na superfície do seu corpo enquanto você lê que talvez nunca tenha passado pela sua cabeça: você está perdendo pele. O tempo todo. As células da pele são produzidas nas camadas mais profundas, chegam à superfície e, depois de cumprir seu ciclo, se desprendem naturalmente. Perdemos dezenas de milhares delas a cada minuto, sem sentir absolutamente nada. Muitas acabam no ambiente e ajudam a formar aquela poeira que aparece pela casa. Ou seja: enquanto você lê esta coluna, uma pequena parte de você já está deixando o seu corpo e indo parar no mundo ao redor.

Agora pare o cronômetro e pense no intervalo que acabou de passar. Foram apenas alguns minutos, mas, dentro deles, seu corpo regulou temperatura, pressão, glicose, água e composição química do sangue enquanto transformava luz em informação e informação em pensamento. Você não precisou comandar conscientemente nenhum desses processos para que acontecessem. Eles estavam ocorrendo antes de você começar a ler, continuaram enquanto seus olhos percorriam estas linhas e continuarão depois que você fechar esta página.

Talvez essa seja uma das melhores maneiras de compreender a nossa relação com a natureza. Ela não está somente nas florestas, nos rios, nos animais ou nas paisagens que aprendemos a chamar de naturais. Ela também está no sangue que circula, na água que atravessa nossas células, no oxigênio que chega aos pulmões, no calor que o organismo tenta conservar e nas células que abandonam silenciosamente a superfície da nossa pele. Durante os poucos minutos desta coluna, você não apenas leu sobre a vida acontecendo: você esteve, o tempo inteiro, fazendo parte dela.

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