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O mito da reciclagem: estamos realmente reciclando?

Coluna Papo Verde com Dani Fumachi

Por Redação

Por Dani Fumachi

A gente lava a embalagem, separa direitinho, coloca no lixo reciclável e sente que fez a nossa parte. Existe um alívio pequeno, social e automático, como se aquele gesto compensasse tudo o que veio antes. O problema é que essa sensação não corresponde à realidade.

A reciclagem, do jeito que ela funciona hoje, está muito longe de ser a solução que vendem para a gente. No Brasil, menos de 10% de todo o plástico gerado de fato volta para a cadeia produtiva. Em alguns tipos de plástico, esse número é ainda menor. O restante segue caminhos menos nobres: aterros, incineração ou simplesmente o ambiente, onde vira microplástico e entra na cadeia alimentar de praticamente todos os seres vivos.

E não é porque as pessoas não se esforçam. Existe um problema estrutural. Grande parte das embalagens que chegam às nossas mãos já nasce praticamente irreciclável. Mistura de materiais, camadas diferentes, pigmentos, formatos que inviabilizam o reaproveitamento. Aquela embalagem bonita, resistente, com várias funções, muitas vezes foi projetada sem qualquer pesquisa, teste ou preocupação com o que acontece depois que você joga fora.

Quando esse material chega aos centros de triagem, ele precisa ser separado, limpo, classificado. Isso custa dinheiro, tempo e mão de obra. Só que o valor de mercado de muitos desses plásticos é baixo. Em termos simples, não compensa reciclar. Então eles ficam para trás. E o que não é economicamente interessante dificilmente vira prioridade em escala.

Existe também um detalhe que pouca gente fala: boa parte da reciclagem depende do trabalho informal. Catadores são responsáveis por uma fatia enorme do que é efetivamente reaproveitado no Brasil. Sem eles, o número já baixo cairia ainda mais. Ainda assim, são pouco reconhecidos, mal remunerados e trabalham em condições precárias. Ou seja, o sistema funciona, em parte, porque alguém absorve o custo que a indústria não quer assumir.

Enquanto isso, a indústria continua produzindo cada vez mais plástico. Em ritmo crescente. Embalagens descartáveis, versões individuais, conveniência acima de qualquer outra coisa. E aqui entra a distorção central: colocaram na mão do consumidor a responsabilidade final de um problema que começa muito antes, no design do produto e na decisão de produzi-lo daquela forma.

Separar o lixo é importante, sim. Ignorar isso seria simplificar demais. Mas acreditar que isso resolve o problema é confortável demais para ser verdade. A reciclagem, sozinha, não acompanha o volume de produção. É como tentar esvaziar uma piscina com um copo enquanto a torneira continua aberta.

Se a gente quiser falar de solução de verdade, a conversa precisa mudar de lugar. Redução de produção, redesign de embalagens, responsabilidade compartilhada com metas claras, logística reversa que funcione na prática e não só no papel, principalmente e prioritariamente para empresas produtoras desses produtos. E, do lado do consumidor, menos compra por impulso, menos dependência de descartáveis, mais atenção ao ciclo completo do que se consome.

O mito da reciclagem não está no ato de reciclar. Está na ideia de que isso é o suficiente. Não é! E quanto mais cedo encararmos isso, mais rápido começamos a pressionar quem realmente tem poder de mudar o sistema.

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