“O Dia da Mulher ainda está longe de ser apenas comemorativo”, afirma vereadora Luciana Bernardo
Foto: Arquivo Pessoal
A vereadora Luciana Bernardo (PDT) tem se destacado na política itatibense pela atuação voltada a pautas sociais, culturais e de defesa dos direitos das mulheres. Professora e ativista cultural, ela também é reconhecida na cidade pelo trabalho de incentivo à leitura e por projetos voltados à formação crítica e ao acesso à cultura. Ao longo de sua trajetória na Câmara Municipal de Itatiba, tem apresentado iniciativas e requerimentos relacionados à participação feminina na política, ao fortalecimento das mulheres no esporte e à criação de políticas públicas específicas para esse público.
Em entrevista concedida ao Jornal de Itatiba, a parlamentar falou sobre o significado do Dia Internacional da Mulher, os desafios enfrentados pelas mulheres no município, a participação feminina na política e a importância da leitura como ferramenta de empoderamento.
JI: O que o Dia Internacional da Mulher representa para a senhora, como mulher e como vereadora em Itatiba?
LUCIANA: O Dia Internacional da Mulher foi criado para ser uma comemoração e uma homenagem às conquistas e direitos das mulheres, porém infelizmente ainda não podemos comemorar. Claro que precisamos valorizar todas as superações e avanços, mas estamos passando por um momento muito difícil com o aumento dos casos de feminicídio, violência doméstica e violência sexual. O dia 8 de março hoje representa o quanto muitos homens ainda não aceitam perder o poder que acreditam ter sobre o nosso corpo, nossa vida, nossas escolhas e nossa independência. Quando o oprimido resolve contestar a violência, o opressor reage de forma extremamente agressiva. Muitas vezes apenas um “não” dito por uma mulher pode terminar em morte. Por isso, o Dia da Mulher ainda está longe de ser apenas comemorativo.
JI: Quais são hoje os principais desafios enfrentados pelas mulheres no município e que precisam de mais atenção do poder público?
LUCIANA: Entendo que passou da hora de Itatiba ter uma Secretaria da Mulher, com recursos específicos voltados a políticas públicas direcionadas a esse público. Além da violência, recebo muitas demandas relacionadas à saúde da mulher, como a endometriose, que causa dores intensas e prejudica a qualidade de vida. Precisamos agilizar atendimentos e ampliar a informação à população. Também é necessário discutir mais os direitos reprodutivos da mulher e levar essa discussão às escolas, prevenindo violência sexual e gravidez precoce. Outra demanda importante é o acolhimento das mulheres no período da menopausa, que muitas vezes enfrentam falta de informação e apoio. No mercado de trabalho ainda existem dificuldades, especialmente para mulheres acima de 40 anos que não tiveram oportunidade de estudo ou qualificação. O poder público precisa ter um olhar atento para essas questões de gênero.
JI: Há algum projeto ou iniciativa de sua autoria que impacte diretamente a vida das mulheres itatibenses?
LUCIANA: Sim. Tenho um projeto de lei que incentiva a participação das mulheres na política, outro que incentiva as mulheres no esporte e também um projeto sobre as chamadas “tendas violetas”, que seriam espaços de acolhimento para mulheres em eventos realizados em espaços públicos. Esses projetos aguardam discussão e votação na Câmara. Além disso, nesses seis anos de mandato protocolei inúmeros requerimentos pedindo informações sobre políticas públicas voltadas às mulheres em diversas áreas. Também tenho atuação significativa na defesa dos direitos da diversidade, especialmente voltados ao público feminino dessa comunidade.
JI: Como a senhora avalia a participação feminina na política local? Ainda há barreiras a serem superadas?
LUCIANA: Hoje Itatiba conta com três vereadoras, o que representa cerca de 15% da Câmara Municipal, número abaixo da média nacional, que gira em torno de 18%. Nas secretarias municipais a representatividade feminina é de cerca de 31%. Considerando que as mulheres representam mais de 50% da população, ainda temos muito a avançar. Também é importante observar que a maioria das posições de poder ainda é ocupada por mulheres brancas, o que mostra a dificuldade de mulheres negras chegarem a esses cargos. Já no Judiciário temos quatro juízas, ou seja, uma representatividade de 100% feminina, o que é um avanço importante. No Legislativo e no Executivo ainda faltam recursos para campanhas femininas, além do fato de que muitas mulheres acumulam responsabilidades domésticas e familiares, o que dificulta a participação política.
JI: Seu projeto de leitura tem forte atuação na cidade. De que forma a literatura pode contribuir para o fortalecimento e a autonomia das mulheres?
LUCIANA: A leitura contribui de forma muito positiva para as mulheres. Dados mostram que elas leem mais que os homens, algo que também percebo no meu projeto. A leitura é fundamental para o autodesenvolvimento, o empoderamento e o senso crítico. Em uma sociedade que precisa de mais letramento social, os livros ajudam a ampliar horizontes e também oferecem momentos de reflexão e lazer. Ter acesso à leitura é libertador, e espero que o projeto possa contribuir para que cada vez mais mulheres se sintam empoderadas.
JI: Que mensagem a senhora deixa para as meninas e mulheres de Itatiba neste Dia Internacional da Mulher?
LUCIANA: A mensagem que quero deixar é que não deixem de acreditar em um mundo melhor para nós e, apesar de tudo, não desanimem. Não deixem de lutar pelos seus direitos, pelo seu espaço e pela sua dignidade como cidadãs. Acreditem no poder da educação, busquem independência financeira e lembrem-se das mulheres que abriram caminhos antes de nós, deixando um legado de conquistas e superação. E o mais importante: ao menor sinal de abuso, busquem ajuda.