Ilha da Queimada Grande: como é a área proibida no litoral paulista e por que as cobras se tornaram as principais moradoras
Coluna Papo Verde, com Dani Fumachi
Por Dani Fumachi
Do molhe de Itanhaém, em tarde limpa, ela aparece como um risco verde no horizonte. São 33 quilômetros de mar aberto até lá, 35 se a saída for de Peruíbe, e 43 hectares de pedra coberta por Mata Atlântica sem praia, sem píer, sem faixa de areia, 430 mil metros quadrados que o Brasil foi proibido de ocupar.
A Ilha da Queimada Grande é Área de Relevante Interesse Ecológico desde 5 de novembro de 1985, sob gestão do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, e o desembarque permanece proibido para qualquer civil sem autorização científica formal. Não existe turismo regulamentado, não existe passeio autorizado, não existe estrutura de recepção. Não há trilha, não há quiosque, não há exceção.
A ilha já foi continente. No fim da última glaciação, quando o nível do mar começou a subir há cerca de 11 mil anos, um fragmento da Serra do Mar foi isolado no Atlântico junto com tudo o que existia sobre ele: árvores, insetos, anfíbios, aves e uma população de jararacas comuns. O oceano fechou o caminho de volta e transformou aquele pedaço de Mata Atlântica num laboratório involuntário da evolução.
Sem mamíferos terrestres, sem roedores e sem qualquer possibilidade de expansão genética significativa, as serpentes precisaram mudar para sobreviver. Aprenderam a caçar acima do solo, adaptaram comportamento, metabolismo e veneno a uma realidade completamente diferente da encontrada no continente. Dessa pressão nasceu a jararaca ilhoa, Bothrops insularis, descrita oficialmente em 1921 por Afrânio do Amaral, uma espécie que simplesmente não existe em nenhum outro lugar do planeta.
É uma serpente de coloração mais clara que a jararaca continental, frequentemente dourada ou esverdeada, com corpo relativamente fino e comprimento médio entre 70 e 90 centímetros. Vive principalmente nos galhos, entre bromélias, cipós e árvores baixas da mata insular.
Seu veneno se tornou de três a cinco vezes mais potente que o da jararaca do continente por eficiência biológica. Uma ave atingida no alto não pode voar quilômetros antes de morrer. Se isso acontecesse, a cobra perderia a refeição e desperdiçaria energia num ambiente onde cada oportunidade de caça importa.
O veneno da ilhoa evoluiu para agir rápido, causando necrose intensa, falência circulatória e coagulação acelerada em poucos minutos. Os adultos alimentam-se quase exclusivamente de aves migratórias que utilizam a ilha como ponto de descanso durante rotas atlânticas, incluindo corruíras, sabiás, guaracavas e alegrinhos. Os indivíduos jovens caçam lagartos, anfíbios e pequenos invertebrados endêmicos até atingirem porte suficiente para capturar aves.
O mito turístico da “uma cobra por metro quadrado”, repetido durante décadas em programas sensacionalistas e vídeos de internet, jamais resistiu ao trabalho de campo. Se fosse verdade, a ilha abrigaria cerca de 430 mil serpentes, um número biologicamente impossível para um território daquela dimensão.
Os censos científicos feitos por marcação e recaptura entre 2002 e 2010 estimaram algo entre 2 mil e 4 mil indivíduos vivendo na ilha. Pouco para garantir segurança genética de uma espécie inteira, muito para um espaço tão reduzido e isolado. A densidade impressiona não porque o chão esteja coberto de serpentes, mas porque praticamente toda a cadeia ecológica da ilha gira em torno delas.
O nome Queimada vem de gente, não de geologia. Pescadores e navegadores antigos ateavam fogo na vegetação tentando abrir clareiras para desembarque e facilitar a visualização das pedras durante a navegação costeira. Não funcionou. A mata voltava, fechada e úmida, engolindo novamente qualquer tentativa de ocupação.
Hoje a ilha é protegida por motivos ainda maiores que o medo das serpentes. No mercado ilegal internacional, uma jararaca ilhoa pode valer entre 10 mil e 30 mil dólares para colecionadores e traficantes de fauna exótica. O interesse não é apenas estético ou raro; ele é farmacológico.
Na década de 1970, estudos derivados do veneno da jararaca continental levaram ao desenvolvimento do captopril, primeiro anti hipertensivo da classe dos inibidores da ECA, um medicamento revolucionário que gerou bilhões para a indústria farmacêutica mundial. O Brasil, apesar de fornecer a base biológica da descoberta, recebeu pouco retorno proporcional.
O veneno da jararaca ilhoa, Bothrops insularis, ainda mais concentrado e bioquimicamente singular, continua sendo estudado pelo Instituto Butantan em pesquisas ligadas à coagulação sanguínea, doenças cardiovasculares e oncologia experimental. Cada animal retirado ilegalmente da ilha representa mais do que perda populacional: significa apagar um conjunto genético inteiro moldado em isolamento absoluto por milhares de anos.
Ao redor da ilha existe ainda outro fenômeno raro. Nas águas costeiras de Queimada Grande encontra-se o recife de coral mais austral do Atlântico Sul, um ambiente incomum para aquela latitude, utilizado como abrigo por garoupas, moreias, tartarugas marinhas e inúmeras espécies de peixes costeiros. O isolamento terrestre acabou protegendo também o ambiente marinho ao redor, criando um pequeno enclave ecológico praticamente intacto num dos litorais mais urbanizados do Brasil.
A Queimada Grande intriga porque desafia um impulso humano de transformar toda paisagem em visitação, comércio ou entretenimento. Em tempos em que quase toda área natural precisa justificar sua existência economicamente através do turismo, ela permanece fechada.
Não existe projeto de passarela suspensa, não existe proposta séria de ecoturismo controlado, não existe flexibilização do acesso. Existe apenas proibição. E, paradoxalmente, foi justamente a proibição que permitiu que a mata se regenerasse depois das antigas queimadas, que as aves continuassem usando a ilha como ponto migratório e que a jararaca ilhoa, Bothrops insularis, mesmo criticamente ameaçada e geneticamente vulnerável pela endogamia (indivíduos muito próximos geneticamente que se reproduzem entre si durante muitas gerações), continuasse existindo.
Ver a ilha ainda é possível sem infringir a lei. Em São Paulo, o Instituto Butantan mantém exemplares preservados e conta a história do soro antiofídico e da própria ilhoa e ainda nos deixa o aviso: conservar, às vezes, significa apenas aceitar que existem lugares que não precisam de nós para continuar vivos e a Queimada Grande é um deles.