Endocrinologista do Mário Gatti orienta sobre o uso de canetas emagrecedoras
Medicamentos são indicados para obesidade, diabetes e outras condições; especialista alerta para riscos do uso por conta própria e de produtos sem procedência
Foto: Divulgação
As chamadas “canetas emagrecedoras” se popularizaram nos últimos anos, principalmente, pela capacidade comprovada de perda de peso, embora esses medicamentos também tratem diabetes tipo 2 e outras condições.
Segundo a endocrinologista Lilian Suzigan, da Rede Mário Gatti, as versões aprovadas pelos órgãos competentes, quando utilizadas corretamente, são seguras e eficazes, mas a compra de produtos sem procedência e uso sem acompanhamento médico podem trazer riscos à saúde.
O assunto foi abordado no podcast PodGatti, da Rede Mário Gatti (assista aqui: https://www.youtube.com/watch?v=lVyXHxS3cP0).
As principais medicações dessa classe atuam em vias hormonais relacionadas à regulação do apetite e da glicemia, aumentando a saciedade, reduzindo a fome e retardando o esvaziamento gástrico.
Estudos clínicos mostram que alguns desses medicamentos podem proporcionar perdas de peso superiores a 15% do inicial em determinados pacientes, especialmente nas maiores doses estudadas.
Os resultados, porém, variam de acordo com o medicamento, a dose, o tempo de tratamento e as características de cada paciente. “Existem os [pacientes] bons respondedores e os maus respondedores. Você tem que avaliar a resposta desse paciente”, explica a endocrinologista.
Quem pode usar
A indicação deve ser feita por profissional de saúde, a partir da avaliação individual do paciente. Entre as situações em que esses medicamentos podem ser indicados estão diabetes mellitus tipo 2, sobrepeso associado a comorbidades e obesidade.
Também existem indicações relacionadas a condições como esteatose hepática (gordura no fígado) e síndrome da apneia obstrutiva do sono.
Em casos de sobrepeso, a avaliação não deve considerar apenas o peso ou o índice de massa corporal (IMC). A composição corporal, o percentual de gordura e a circunferência abdominal também são analisados para definir a estratégia de tratamento.
Dose não é igual para todo mundo
Um dos motivos para o acompanhamento médico é que a dose dos medicamentos precisa ser ajustada de acordo com a resposta de cada paciente. Não é necessário que todas as pessoas cheguem à dose máxima.
"Não é porque o remédio tem uma dose de 15 mg [miligramas] que eu preciso chegar nessa dose. Tem os bons respondedores, que com uma dose mais baixa atingem uma perda de 15% a 20% do peso. Então, isso vai variar muito", detalha a médica.
Ela explica que o aumento indiscriminado da dose pode causar problemas de saúde.
Emagrecer não significa perder apenas gordura
Outro ponto que exige acompanhamento é a composição corporal. Todo processo de emagrecimento pode provocar alguma perda de massa magra, mas o objetivo é que a maior parte do peso perdido seja proveniente de gordura.
"Todo emagrecimento causa um pouco perda de massa magra. A gente pensa em uma proporção de um [quilo] para três, que é o que se espera. Um de massa magra para três de gordura", detalha a especialista.
A proporção, porém, pode variar conforme o paciente, o grau de perda de peso, a alimentação, a prática de exercícios e o medicamento utilizado.
A médica destaca que alimentação adequada, especialmente com ingestão suficiente de proteínas, e exercícios de força, como a musculação, ajudam a preservar a massa muscular durante o processo de emagrecimento.
Por isso, o tratamento não deve ser baseado apenas no uso do medicamento. "A mudança do seu estilo de vida precisa vir junto. Isso é uma construção. Você precisa do exercício e melhorar a alimentação para cada vez ter um resultado melhor", orienta.
Tratamento pode ser prolongado
Como a obesidade é considerada uma doença crônica, o tratamento também pode precisar ser mantido por longo período. A interrupção da medicação não deve ocorrer por decisão própria, pois existe possibilidade de novo ganho de peso.
Segundo Lilian, o organismo possui mecanismos que favorecem a recuperação do peso perdido, o que reforça a importância do acompanhamento médico mesmo depois de alcançar o objetivo inicial. “Quando você retira a medicação, a tendência de ganhar peso novamente é muito grande, porque isso é uma resposta fisiológica do organismo.”
Atenção às contraindicações e aos cuidados
As medicações não são indicadas para todas as pessoas. As contraindicações variam conforme o princípio ativo e devem ser verificadas na bula de cada medicamento.
Entre as contraindicações previstas para alguns desses medicamentos estão histórico pessoal ou familiar de carcinoma medular de tireoide e neoplasia endócrina múltipla tipo 2 (MEN2). A gravidez também requer atenção: esses medicamentos não devem ser utilizados para controle de peso durante a gestação.
Condições como doença hepática ou renal avançada e histórico de pancreatite exigem avaliação médica individualizada, pois podem demandar cuidados específicos durante o tratamento.
Cuidado com produtos sem procedência
Um dos principais alertas da endocrinologista é sobre a compra de medicamentos de origem desconhecida ou sem registro e controle adequados.
Produtos que não passaram pelos mecanismos regulares de controle sanitário podem apresentar problemas relacionados à conservação, qualidade, contaminação e quantidade do princípio ativo.
Outro problema é a conservação inadequada. Os medicamentos precisam ser mantidos sob condições específicas de armazenamento, e um transporte inadequado pode comprometer sua eficácia.
A orientação é que a compra seja feita em farmácia, mediante receita médica, com a embalagem e o medicamento devidamente identificados.
"Essa não tem erro, é a medicação regulamentada", resume a especialista.
Uso por conta própria pode trazer riscos
A médica também alerta para o risco de iniciar o tratamento sem orientação profissional ou utilizar doses maiores do que as recomendadas.
“Às vezes, a pessoa começa a usar por conta própria, com uma dose muito alta, e acaba indo parar no hospital porque não consegue parar de vomitar ou de ter diarreia. É muito perigoso. Por isso, é tão importante fazer o acompanhamento”, alerta.
O acompanhamento permite ajustar a dose, controlar efeitos colaterais, avaliar a composição corporal e acompanhar alterações metabólicas.
Além da perda de peso, essas medicações podem melhorar parâmetros como glicemia, triglicérides, ácido úrico e esteatose hepática em pacientes para os quais estejam indicadas, segundo a endocrinologista.
Ela reforça que as medicações podem trazer benefícios importantes quando corretamente indicadas, mas o uso seguro depende de avaliação e acompanhamento profissional.
"Essas medicações são ótimas, elas têm muito benefício, mas precisa haver um pouco de cautela no uso. A gente precisa ter esse acompanhamento. Minha orientação é: procure um médico, faça esse acompanhamento regular", finaliza.