É culpa do El Niño? O que o fenômeno realmente explica — e o que não explica — em 2026
Coluna Papo Verde com Dani Fumachi
Por Dani Fumachi
Durante algumas pautas da coluna Papo Verde neste ano, já falamos sobre o fenômeno El Niño. Mas por que insistentemente voltamos a este assunto?
Porque, em 2026, ele deixou de ser apenas uma previsão e passou a influenciar o cenário climático dos próximos meses. De acordo com o boletim divulgado em 13 de agosto pelo Centro de Previsão Climática da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, a NOAA, o El Niño está se fortalecendo e apresenta mais de 90% de probabilidade de se tornar muito forte entre o final de 2026 e o início de 2027. Para o trimestre entre outubro e dezembro, há ainda 69% de chance de o fenômeno alcançar uma intensidade superior à dos eventos registrados desde 1950.
Com o assunto cada vez mais presente nas notícias, porém, o El Niño começou a ser responsabilizado por quase tudo: calor fora de época, quedas repentinas de temperatura, secas, enchentes, incêndios e até terremotos. Para entender o que ele realmente pode provocar, é necessário primeiro compreender a escala em que atua.
O El Niño surge quando ocorre um aquecimento persistente das águas superficiais do Pacífico Equatorial, acompanhado de mudanças nos ventos e na circulação atmosférica. Seus efeitos se desenvolvem ao longo de semanas e meses. Ele altera a probabilidade de determinados padrões climáticos, mas não controla isoladamente o tempo de cada cidade ou aquilo que acontecerá em um dia específico.
Essa diferença explica por que um período de calor intenso pode ser interrompido por uma queda brusca de temperatura mesmo durante um El Niño forte. As mudanças rápidas são provocadas principalmente pela chegada de frentes frias e pela substituição de uma massa de ar quente por outra de origem polar. O El Niño pode interferir na trajetória, na frequência ou na permanência desses sistemas, mas não é o responsável direto por cada virada dos termômetros. Em termos simples, o fenômeno ajuda a estabelecer o cenário climático; as massas de ar determinam grande parte das mudanças que sentimos de um dia para outro.
O aquecimento global também participa dessa equação. El Niño é um fenômeno natural e temporário, enquanto as mudanças climáticas vêm elevando de forma contínua a temperatura média do planeta. Quando os dois processos coincidem, o aquecimento natural do Pacífico atua sobre uma atmosfera que já retém mais calor. Isso aumenta a possibilidade de temperaturas extremas, embora não elimine a ocorrência de dias frios.
No Brasil, os efeitos do El Niño variam conforme a região. Historicamente, o fenômeno favorece chuvas mais frequentes no Sul e reduz as precipitações em partes do Norte e do Nordeste, além de contribuir para temperaturas mais elevadas em grande parte do país. A previsão do Instituto Nacional de Meteorologia para agosto de 2026 já indicava temperaturas acima da média nacional, com desvios mais expressivos nas regiões Norte e Centro-Oeste.
Essas tendências não significam que todos os lugares enfrentarão os mesmos efeitos. O El Niño aumenta determinados riscos, mas o tamanho dos danos também depende das condições locais. A chuva intensa se torna uma inundação destrutiva onde existem ocupações vulneráveis, rios degradados e drenagem insuficiente. A seca favorece incêndios ao deixar a vegetação mais inflamável, mas grande parte das chamas ainda começa pela ação humana. O fenômeno climático pode criar condições mais perigosas sem ser o único responsável pelo desastre.
É justamente essa diferença entre influência e causa que precisa ser considerada ao analisar os fortes terremotos registrados na Venezuela e na Colômbia em 2026. Como os tremores aconteceram durante o fortalecimento do El Niño, surgiram especulações sobre uma possível ligação. Até o momento, porém, não existe evidência científica que sustente essa relação.
O terremoto colombiano de 10 de agosto teve magnitude 7,4 e ocorreu a 103 quilômetros de profundidade. Segundo o Serviço Geológico Colombiano, o evento foi provocado pelo processo de subducção, no qual a placa de Nazca mergulha sob a placa Sul-Americana. A Colômbia registra, em média, cerca de 2.500 terremotos por mês, embora a maioria seja tão fraca que somente os equipamentos consegue detectá-los.
O terremoto venezuelano de 24 de junho também ocorreu em uma região tectonicamente ativa, próxima ao encontro das placas do Caribe e Sul-Americana. Portanto, os dois episódios possuem explicações geológicas conhecidas. A coincidência com o El Niño não demonstra que exista uma relação de causa e efeito.
Há pesquisas mostrando que chuvas muito intensas, secas prolongadas, alterações em reservatórios e retirada de água subterrânea podem modificar discretamente o peso exercido sobre a crosta. Em situações específicas, essas mudanças podem influenciar pequenos tremores em falhas superficiais que já estavam sob tensão. No entanto, a NASA afirma que a ciência ainda não consegue prever quando uma falha poderia se romper em consequência desses processos. O Serviço Geológico dos Estados Unidos acrescenta que não existe um padrão de grandes terremotos destrutivos associados a períodos de chuva ou seca. Essas pesquisas, portanto, não explicam os terremotos ocorridos na Colômbia e na Venezuela.
Para interpretar os acontecimentos de 2026, precisamos distinguir três situações: aquilo que o El Niño provoca, aquilo que ele pode agravar e aquilo que apenas coincide com sua presença. Ele altera a circulação atmosférica, pode intensificar riscos de calor, seca, chuva e incêndios, mas não movimenta as placas tectônicas responsáveis pelos grandes terremotos.
Voltamos ao El Niño porque o fenômeno continua evoluindo e seus principais efeitos ainda podem estar à nossa frente. Compreendê-lo permite que cada região se prepare para seus próprios riscos. Transformá-lo em explicação para tudo, porém, produz desinformação. Na ciência, dois acontecimentos simultâneos não estabelecem uma causa. Entre a coincidência e a conclusão, precisa existir uma evidência.