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Delegacias da Mulher atraem nova geração de delegadas para reforçar o combate à violência

Reconhecimento do trabalho policial e social desenvolvido nas unidades especializadas impulsiona procura por vagas

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Foto: SSP-SP

Por Isabelle Amaral

Se há dez ou quinze anos a Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) enfrentava resistência até dentro da própria Polícia Civil, hoje o cenário é oposto: as vagas são preenchidas logo na abertura do período de escolha. A mudança revela não apenas o avanço da pauta da violência de gênero na segurança pública paulista, mas também o perfil de uma nova geração de delegadas que deseja construir carreira na linha de frente do enfrentamento à violência doméstica.

Para escolher as vagas abertas na corporação, as policiais precisam obter as melhores notas na Academia de Polícia (Acadepol). As primeiras colocadas têm prioridade na seleção das unidades onde desejam atuar. Quem não alcança pontuação suficiente acaba ficando com as opções remanescentes.

Foi por isso que as delegadas Maria Luiza Lukenczuk e Isadora Haddad, formadas em novembro de 2024, se dedicaram intensamente aos estudos. Antes mesmo de serem aprovadas no concurso, já sabiam que queriam trabalhar na Delegacia de Defesa da Mulher — unidade que, no passado, enfrentava resistência pela pouca visibilidade.

“Vejo a violência contra a mulher e o machismo como reflexos do nível de educação e da cultura de uma sociedade. Trabalhar enfrentando esse tipo de problema sempre foi meu objetivo”, afirmou Isadora. Maria Luiza compartilha da mesma motivação: “Nos dedicamos por essas vagas. Foi um objetivo alcançado”.

Empatia, profissionalismo e maturidade emocional para lidar com ocorrências dolorosas

Desde que se formaram na Academia de Polícia, as duas atuam na 1ª DDM, instalada na Casa da Mulher Brasileira, no centro da capital. Embora tenham conquistado a vaga desejada, a rotina exige empatia, profissionalismo e maturidade emocional, já que lidam diariamente com ocorrências complexas e relatos de violência explícita contra mulheres e crianças.

“Praticamente todos os casos de feminicídio que registramos aconteceram na frente dos filhos. Não há um padrão nas ocorrências, mas isso é realmente assustador”, relatou Maria Luiza. Muitos desses casos não haviam sido denunciados anteriormente, o que impediu uma atuação preventiva da polícia.

Para Isadora, um dos aspectos mais chocantes é a naturalização da violência por parte dos agressores. “Quando conversamos com eles, alguns até confessam o que fizeram, mas, na cabeça deles, não há nada de errado. Entendem como algo normal”, revelou. “O pior é quando cometem abusos contra crianças e adolescentes, as vezes, da própria família. Isso gera uma preocupação sobre o tipo de pessoa que convive com a gente na sociedade.”

Para não absorver o peso das histórias atendidas, as delegadas dizem que aprenderam a “não ser esponja”, criando limites entre o acolhimento e o envolvimento emocional. Ao fim do expediente, tentam ter consciência de que fizeram tudo o que estava ao alcance para ajudar cada vítima.

Os casos de mulheres e crianças que conseguem a condenação do agressor ou retornam à delegacia para agradecer pelo atendimento funcionam como incentivo para seguirem em frente, na proteção de mulheres e crianças.

Por que o trabalho na DDM já foi evitado?

A delegada Cristine Nascimento, titular da 1ª DDM, explica que, anos atrás, muitos recém-formados evitavam a unidade porque o trabalho não era reconhecido como atividade policial tradicional.

“Na minha época, havia uma relutância de delegados, investigadores e escrivães em atuar na DDM porque o serviço era voltado ao atendimento da violência doméstica e de gênero. Muitos queriam lidar apenas com roubos, homicídios e outros crimes considerados mais ‘operacionais’. As vagas nas unidades especializadas acabavam sendo as que sobravam”, afirmou.

Segundo ela, o cenário começou a mudar com o aumento da visibilidade do tema dentro da segurança pública, a melhoria da estrutura das delegacias e o reconhecimento da importância policial e social do trabalho desenvolvido.

Hoje, a realidade é inversa. “As vagas são disputadas. Temos até lista de espera”, disse.

Para Cristine, que atua há 13 anos na unidade, houve uma mudança significativa na percepção interna da corporação. Construir carreira no enfrentamento à violência doméstica passou a ser tão relevante quanto ou até mais do que atuar em outras áreas tradicionalmente valorizadas da investigação criminal.

Estado tem mais de 140 DDMs

O estado conta com 142 Delegacias de Defesa da Mulher, 18 delegacias com atendimento 24 horas e 173 Salas DDM, instaladas em delegacias territoriais com atendimento ininterrupto. Também está disponível a DDM Online, que permite o registro de boletim de ocorrência e a solicitação de medidas protetivas pela internet.

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