De arritmias a morte súbita: cardiologista do Mário Gatti alerta sobre riscos do uso de anabolizantes
Uso de altas doses para fins estéticos ou desempenho físico pode provocar alterações graves no sistema cardiovascular. Veja explicações do médico e evite riscos ao sistema cardíaco
Foto: Divulgação / Hosp; Mario Gatti
O uso indiscriminado de anabolizantes para fins estéticos ou aumento de desempenho físico pode provocar alterações graves no sistema cardiovascular, aumentando o risco de hipertensão, arritmias, insuficiência cardíaca e até morte súbita. O alerta é do cardiologista da Rede Mário Gatti e professor de medicina Fábio Giovanetti Morano, em entrevista ao podcast PodGatti - assista aqui https://www.youtube.com/watch?v=5t4Sle_4yDo.
Segundo o especialista, os maiores riscos estão associados ao uso de doses muito acima das indicadas para tratamento de doenças. "Nós estamos discutindo a respeito do uso de anabolizantes suprafisiológicos, ou seja, são dosagens maiores que recomendadas, às vezes, para doenças como hipogonadismo", explica o especialista.
Ele alerta que essas doses elevadas desencadeiam uma série de alterações no organismo."Você pode ter alterações cardíacas, como, por exemplo, uma hipertrofia do músculo cardíaco de uma maneira não fisiológica, você pode ter alterações nos níveis pressóricos, diminuição do colesterol bom e aumento do colesterol ruim, alterações na coagulação do sangue, alterações nas plaquetas, fora todas as alterações causadas na parte hormonal", elenca o médico.
De acordo com ele, esse conjunto de alterações favorece o desenvolvimento precoce de doenças cardiovasculares.
Crescimento anormal do coração
O cardiologista explica que o coração também é um músculo e pode sofrer um crescimento anormal provocado pelos anabolizantes."Quando você treina esse músculo [coração], a tendência é você aumentar a massa muscular. Isso pode ocorrer de maneira fisiológica, através dos exercícios físicos de maneira regular, mas você também pode amplificar isso ou potencializar isso com o uso de anabolizantes. Só que isso não é de uma maneira fisiológica", compara.
Segundo ele, esse crescimento desordenado pode provocar alterações permanentes."Você pode ter aumento de fibrose dentro dessa musculatura cardíaca, e essa fibrose pode propiciar arritmias. Essa hipertrofia, quando é gerada de maneira não fisiológica, pode evoluir até para uma dilatação do coração no futuro. A dilatação é uma alteração irreversível, causando quadros de insuficiência cardíaca", detalha o especialista.
Tempo de uso influencia
Os danos provocados pelos anabolizantes dependem principalmente da quantidade utilizada e do tempo de uso."Aquele paciente que usa doses altas por um tempo maior vai ser muito mais prejudicado que aquele que usa doses não tão altas com tempo não tão grande", compara o cardiologista.
Segundo ele, interromper o uso precocemente pode evitar sequelas, mas existe um limite."Inicialmente, essas lesões podem ser reversíveis com a cessação do uso. Mas, a partir de um momento, a lesão chega a um nível que começa a ser irreversível."
Ele alerta que, nessa fase, o paciente pode desenvolver doença crônica.
Risco de morte súbita
Embora nem toda morte súbita durante a prática esportiva esteja relacionada aos anabolizantes, Morano explica que o uso dessas substâncias pode levar a isso."Esse coração hipertrofiado também desenvolve áreas de fibrose dentro do músculo cardíaco. Então, esse paciente pode ter alguns tipos de arritmia, algumas benignas, outras não tão benignas, e ele pode ter uma taquicardia ventricular ou arritmias malignas que podem evoluir até à morte súbita", alerta.
A combinação entre uso de anabolizantes e treinos excessivos também aumenta os riscos."Se você junta um overtraining - quando a carga de exercícios excede a capacidade de recuperação do organismo - com o uso de anabolizante, você potencializa o risco de ter alguma complicação."
Além disso, pessoas com doenças silenciosas podem ter o quadro agravado. "Você pode ter um gatilho para uma doença coronariana que estava quieta ali e acaba despertando com o uso dessas drogas", aponta o especialista.
Atividade física é essencial
Apesar dos riscos associados ao uso de anabolizantes, o cardiologista reforça que a prática regular de exercícios continua sendo uma das principais estratégias para prevenção de doenças."Hoje em dia, a atividade física não é uma recomendação. Ela é uma obrigatoriedade."
Ele recomenda pelo menos 150 minutos semanais de atividade física de intensidade moderada e orienta que qualquer sintoma durante os exercícios seja investigado."Aquele paciente que está fazendo atividade física, não se sente bem depois da atividade física ou durante o pico da atividade física, ele tem palpitação, dor no peito, falta de ar, tontura e esses sintomas permaneçam mais tempo, isso indica que possa ter um problema", orienta o médico.
Morano também alerta que não existe uso recreativo seguro de anabolizantes. Segundo ele, essas substâncias têm indicação médica apenas em situações específicas. "Você tem indicação do uso de anabolizantes ou de hormônios para as pessoas que têm doenças que necessitam de reposição [hormonal]. [...] As outras indicações não são aprovadas pelas sociedades de cardiologia e endocrinologia."
O cardiologista reforça a importância de buscar orientação profissional antes de utilizar qualquer substância ou iniciar atividades físicas intensas."Se você tem alguma dúvida a respeito da reposição de alguns suplementos, se você quer alguma orientação a respeito da atividade, procure um profissional habilitado, seja ele um educador físico, seja ele um fisioterapeuta, seja ele um profissional médico para te orientar de maneira segura para você manter a sua saúde”, finaliza.