Da crise climática aos oceanos: o que está em jogo na agenda ambiental da ONU
Coluna Papo Verde com Dani Fumachi
Por Dani Fumachi
Todos os anos, em setembro, Nova York se transforma no centro das discussões diplomáticas mundiais. É ali, na sede da Organização das Nações Unidas (ONU), que representantes dos 193 países-membros se reúnem para a Assembleia Geral, o principal espaço de debate e formulação de políticas da organização. Em 2026, a 81ª sessão teve início oficialmente em 8 de setembro, mas é entre os dias 18 e 28 que acontece a chamada Semana de Alto Nível, período que concentra a presença de chefes de Estado, governos e representantes de diferentes países. O debate geral começou em 22 de setembro e reúne os países para apresentar suas prioridades e discutir problemas que ultrapassam as fronteiras nacionais.
A Assembleia acontece em um momento em que o mundo enfrenta crises que não podem mais ser resolvidas por um país sozinho. Guerras, desigualdade, segurança, saúde, desenvolvimento e mudanças climáticas fazem parte de uma agenda ampla de discussões. Neste ano, sob o tema “Restaurando a confiança, gerenciando a transformação: uma ONU que entrega para todos”, os países também discutem como fortalecer a cooperação internacional e avançar nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.
Dentro dessa grande agenda, o meio ambiente ganhou espaço próprio. Em 23 de setembro, os países participaram de uma reunião de alto nível sobre ação climática e transição justa, com discussões sobre a aceleração da transição energética, segurança energética, justiça climática e proteção das populações diante do agravamento da crise climática. No dia seguinte, a Assembleia realizou uma reunião específica sobre a elevação do nível do mar, considerada uma ameaça crescente para países insulares e regiões costeiras de baixa altitude.
Mas por que tantos assuntos ambientais precisam estar na mesma mesa?
A resposta está na forma como os problemas se conectam. A crise climática não acontece separada da perda de biodiversidade, da degradação dos solos, da poluição ou das mudanças nos oceanos. O aumento da temperatura interfere no ciclo da água, na agricultura e nos ecossistemas. A destruição de ambientes naturais reduz a capacidade de a natureza prestar serviços essenciais, como armazenar carbono, proteger o solo e ajudar a regular a água. A degradação das terras pode favorecer a desertificação e comprometer a produção de alimentos. E oceanos mais quentes e alterados também afetam a vida marinha e as comunidades que dependem dela.
Por isso, a agenda ambiental internacional também envolve adaptação. Não basta discutir como reduzir as emissões que provocam o aquecimento do planeta. É preciso preparar cidades e comunidades para os impactos que já estão acontecendo. Sistemas de alerta, planejamento urbano, infraestrutura, proteção de áreas naturais e medidas para enfrentar enchentes, secas e ondas de calor fazem parte dessa preparação.
Outro ponto importante é o dinheiro necessário para colocar essas medidas em prática. Países mais vulneráveis defendem maior acesso a financiamento para adaptação e para enfrentar perdas e danos provocados pelos impactos climáticos. Afinal, uma decisão internacional só produz resultado quando consegue sair dos documentos e chegar às comunidades.
Para o Brasil, essa discussão está longe de ser apenas diplomática. Somos um país de enorme biodiversidade, com grandes áreas de florestas, uma extensa faixa costeira, importantes recursos hídricos e uma economia que depende fortemente da agricultura e dos recursos naturais. O que é discutido em Nova York pode ter relação direta com questões que encontramos aqui: conservação das florestas, segurança hídrica, produção de alimentos, recuperação de áreas degradadas, proteção da biodiversidade e prevenção de desastres.
A Assembleia termina, os discursos acabam e as delegações voltam aos seus países. Mas os problemas discutidos continuam nos territórios, onde seus efeitos já fazem parte da vida de milhões de pessoas. É justamente aí que está o grande desafio: transformar acordos e compromissos internacionais em políticas funcionais e eficazes, investimentos e ações concretas capazes de proteger pessoas, preservar a natureza e preparar as sociedades para um cenário ambiental que já está mudando.