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Por Redação

Campinas lança programa de atendimento a pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas online

Virando o Jogo oferecerá teleatendimento a pacientes a partir desta quinta-feira, 3 de setembro, e incluirá capacitação semanal de profissionais da rede

Por Redação

Foto: Rogério Capela

A Secretaria de Saúde de Campinas lançou nesta quarta-feira, 2 de setembro, o "Virando o Jogo: Programa de prevenção e cuidado às pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas online". Será oferecido teleatendimento para orientação, triagem e encaminhamento dos pacientes, além da capacitação continuada dos profissionais da rede municipal, em uma parceria com a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), para identificar e acompanhar pessoas com problemas relacionados às apostas (bets).

O teleatendimento começa nesta quinta-feira, 3 de setembro. Ele será realizado por profissionais de saúde mental da rede municipal, com acesso por meio da assistente virtual Ana, da Secretaria Municipal de Saúde (pelo WhatsApp, no número 19 99899-0903).

"É um programa estruturado que abre as portas através do teleatendimento, é articulado com a rede de atendimento para pacientes psiquiátricos da prefeitura e também tem uma parceria importante com o ambulatório de substâncias psicoativas da Unicamp. Então, é toda uma rede estruturada para atender pacientes que hoje comprometem a renda familiar com apostas em bets e sofrem essa propaganda, muitas vezes abusiva", detalhou o prefeito Dário Saadi.

A medida complementa o decreto que proíbe a veiculação de publicidade de bets, em painéis, outdoors, mobiliário urbano e demais espaços publicitários regulamentados pelo Município, publicado no dia 31 de julho.

Ao solicitar o teleatendimento, a pessoa será convidada a responder a um autoteste rápido, desenvolvido pela Universidade de São Paulo (USP) e também utilizado pelo Ministério da Saúde.

Na sequência, será agendado o teleatendimento, no qual um profissional capacitado vai avaliar a situação e definir a melhor conduta. Dependendo do caso, poderão ser realizados novos teleatendimentos ou ser feito o encaminhamento para outro serviço da rede, como Centro de Atenção Psicossocial (Caps) ou Centro de Saúde (CS).

O teleatendimento será realizado no Departamento de Ensino e Pesquisa (Deps), com utilização de estrutura tecnológica que garante privacidade e sigilo aos pacientes, além do prontuário eletrônico já adotado pela rede municipal.

"Esse é um problema nacional, não é de Campinas. Nós vamos conscientizar as pessoas que precisam de ajuda - e aqui a família é fundamental para trabalhar junto e acolher -, e os próprios profissionais da área da saúde têm que se sentir capacitados para o enfrentamento dessa nova doença. Claramente, isso é uma doença e tem que ser enfrentada. Estamos trazendo a universidade porque nós precisamos também criar uma expertise de enfrentamento", explica o secretário de Saúde, Lair Zambon.

Porta de acesso facilitada

Atualmente, Campinas conta com 15 Caps e 69 CSs, que continuarão sendo portas de entrada para pessoas com problemas relacionados aos jogos. "A ideia não é fechar as outras portas. É produzir mais uma porta de acesso", explica o coordenador de Saúde Mental da Secretaria Municipal de Saúde, Marcelo de Souza Bruniera.

Um dos diferenciais do teleatendimento é facilitar esse acesso, que pode ser feito de casa, por meio do celular.

"Um dos fatores de grande impacto é a facilidade com que as pessoas acessam o jogo das suas casas, através dos celulares. Isso traz impactos individuais e coletivos muito grandes. Então, uma das premissas do nosso programa também é facilitar o acesso à orientação e ao tratamento", aponta Bruniera.

A equipe inicial terá 12 profissionais de nível superior, entre psicólogos, terapeutas ocupacionais e assistentes sociais.

A duração do acompanhamento será definida de acordo com a necessidade de cada pessoa. Em situações mais simples, o atendimento poderá resultar apenas em orientação, como informações sobre mecanismos de autoexclusão de plataformas de apostas. Casos mais complexos poderão demandar acompanhamento prolongado pela rede de saúde mental.

Problemas associados

O cuidado oferecido pelo programa também levará em consideração outros problemas de saúde mental que podem estar associados ao uso problemático de jogos.

"Estima-se que pelo menos três em cada quatro pessoas que têm problema com jogo têm outro sintoma que merece tratamento. Então três quartos são comórbidos", detalha Bruniera.

Por isso, a avaliação poderá identificar outras necessidades de cuidado e direcionar o paciente para os serviços adequados da rede municipal.

Capacitação será permanente

A parceria com a Unicamp será por meio do Ambulatório de Substâncias Psicoativas (Aspa), para a formação continuada dos profissionais. Haverá encontros semanais para discussão de casos, abordagem de temáticas relacionadas às apostas e definição de estratégias terapêuticas.

"A ideia é ter uma hora e meia semanal para a rede discutir com especialistas o tema, as dificuldades e ferramentas", aponta o coordenador da Saúde Mental.

A capacitação será aberta a todos os profissionais da rede municipal. A proposta é que qualquer profissional que identifique uma pessoa com possível problema relacionado a jogos esteja preparado para acolher e fazer o encaminhamento necessário dentro da rede.

Além disso, os profissionais do teleatendimento foram capacitados pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e vão passar por uma imersão no ambulatório da Unicamp que já atende esses casos.

Segundo Renata Azevedo, psiquiatra do Aspa, o atendimento pela Unicamp começou em maio e, após a divulgação do serviço, foi verificada uma demanda reprimida.

"De lá para cá, a gente tem recebido em torno de 10 pacientes por semana, casos novos, com problemas relacionados a bets. Então, claramente, há pessoas que ainda não sabem como procurar ajuda nem onde. A minha expectativa é que com essa divulgação a gente consiga atingir mais pessoas", explicou Renata.

Ação preventiva com estudantes

O projeto também vai envolver profissionais das secretarias de Desenvolvimento e Assistência Social e de Educação, para ações preventivas com estudantes.

"A gente está com uma parceria forte com a Secretaria de Educação para a gente pensar que nossas crianças e adolescentes também estão sendo expostos, e [pensar] como a gente pode envolver os professores e trabalhar preventivamente para evitar que eles cheguem à dependência", explica a diretora do Deps, Marcelle Benetti.

"A educação previne, a educação orienta, a educação promove acolhimento, traz informação de qualidade para os nossos jovens, para as nossas crianças, para desenvolver competências para escolhas conscientes. Os nossos jovens precisam saber escolher, precisam saber trilhar os seus caminhos", destacou a secretária de Educação de Campinas, Patrícia Adolf Lutz.

Sinais de alerta

Entre os sinais que podem indicar uma relação problemática com jogos e apostas estão insônia, irritabilidade, mudanças de comportamento e humor, endividamento, necessidade de continuar jogando para recuperar dinheiro perdido e dificuldade de interromper as apostas.

A expectativa de obter renda regular por meio das apostas também deve ser vista como um sinal de alerta, assim como alterações nas relações familiares e sociais.

"Alterações comportamentais, financeiras e relacionais, porque você começa a ficar mais irritado, mais violento com outras pessoas, e essa ideia de perder o controle no jogo, de tentar jogar cada vez mais para reaver o que perdeu", elenca o coordenador da Saúde Mental.

A família também pode ajudar a identificar mudanças, principalmente relacionadas à vida financeira e ao comportamento. O acompanhamento das despesas e a percepção de alterações como irritabilidade, insônia e baixa tolerância à frustração podem contribuir para que a pessoa seja orientada a buscar ajuda.

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