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As mudanças climáticas e o equilíbrio reprodutivo das árvores: qual a ligação?

Coluna Papo Verde com Dani Fumachi

Por Redação

Por Dani Fumachi

Quando pensamos nos impactos das mudanças climáticas, imaginamos geleiras derretendo, queimadas, enchentes ou ondas de calor. Mas a crise vai além da paisagem visível: ela atinge mecanismos biológicos profundos, como a forma como as árvores se reproduzem.

Muitas espécies têm sexos separados. São as chamadas dióicas, nas quais existem indivíduos masculinos e femininos distintos. É o caso de salgueiros, álamos, ginkgos, zimbros e diversas árvores tropicais. Outras espécies reúnem flores masculinas e femininas na mesma planta, mas nas dióicas a separação é completa, como ocorre em muitos animais.

Essa separação tem um custo. As árvores femininas investem muita água, nutrientes e energia para produzir sementes e frutos. As masculinas produzem apenas pólen, o que exige bem menos recursos. Em condições estáveis, o sistema se equilibra. Sob secas intensas e estresse hídrico prolongado, porém, o custo para as fêmeas se torna crítico.

Em 2016, um artigo na Nature Plants, liderado por Kevin R. Hultine, Kevin C. Grady, Troy E. Wood, Stephen M. Shuster, John C. Stella e Thomas G. Whitham, mostrou exatamente isso. Ao analisar espécies dióicas, os autores concluíram que o aumento da aridez tende a gerar populações com forte predominância masculina, porque “machos geralmente são menos sensíveis ao aumento da aridez do que fêmeas coexistentes”. Com mais fêmeas morrendo, há menos frutos, menos sementes e menor regeneração florestal. Um efeito em cascata que atinge aves, insetos e mamíferos que dependem desses alimentos.

Algumas plantas apresentam ainda o que a ciência chama de plasticidade sexual. Não é uma “troca de sexo” instantânea, como sugerem manchetes simplistas, e sim um ajuste na proporção de flores masculinas e femininas ou na alocação de energia reprodutiva em resposta ao ambiente. É a natureza tentando sobreviver a condições extremas.

Os sinais desse desajuste já são globais. Uma análise divulgada em 2026, com mais de 67 mil espécies de plantas vasculares, estimou que entre 7% e 16% delas podem perder mais de 90% de suas áreas climaticamente adequadas até o fim do século, incluindo eucaliptos australianos. Outro levantamento, com cerca de 8 mil espécimes tropicais coletados ao longo de 200 anos no Brasil, Equador, Gana e Tailândia, revelou que muitas espécies estão florescendo semanas ou meses fora do período histórico devido às mudanças climáticas. Fora de sincronia com seus polinizadores, a produção de frutos cai e toda a cadeia ecológica é afetada.

Tudo isso acontece em silêncio. Não vemos árvores fugindo da seca, mas sua fisiologia responde de forma cada vez mais evidente.

Durante décadas, tratamos a crise climática como um problema distante. Hoje, ela alcança estruturas evolutivas moldadas ao longo de milhões de anos, reprodução, genética e distribuição populacional. A crise não altera apenas o clima da Terra; altera o funcionamento da própria vida.

A natureza não é um cenário imóvel ao fundo da existência humana. É um sistema vivo, complexo e sensível. Quando o planeta adoece, até as árvores mudam.

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