Afinal, o ser humano veio do macaco?
Coluna Papo Verde com Dani Fumachi
Por Dani Fumachi
Hoje, na coluna Papo Verde, vamos falar um pouco sobre evolução humana. Durante décadas, esse processo foi resumido por uma imagem fácil de reconhecer: um macaco curvado que, pouco a pouco, se ergue até se transformar em um homem moderno. A cena parece didática, mas está cientificamente errada. O ser humano não descende dos chimpanzés, dos gorilas nem de qualquer outro primata que exista atualmente. Nós e eles somos parentes evolutivos, pois descendemos de ancestrais em comum. É como acontece entre dois primos: um não veio do outro, mas ambos pertencem à mesma família porque compartilham os mesmos avós
Com humanos e chimpanzés aconteceu algo semelhante. Há cerca de 6 a 7 milhões de anos, populações ancestrais africanas começaram a seguir caminhos diferentes. Um desses ramos daria origem aos chimpanzés e bonobos atuais; outro, a várias espécies de hominínios, entre elas a nossa. Por isso os outros primatas continuam existindo: eles nunca foram uma versão incompleta do ser humano. A evolução não funciona como uma escada, mas como uma árvore imensa, cujos galhos se dividem, crescem lado a lado e, muitas vezes, desaparecem. Durante milhões de anos, diferentes espécies humanas coexistiram, algumas como possíveis ancestrais e outras como parentes distantes de ramos que não chegaram até o presente.
Antes do cérebro grande, vieram os passos
Andar sobre duas pernas surgiu muito antes do grande aumento do cérebro humano. Lucy, uma fêmea de Australopithecus afarensis que viveu há cerca de 3,18 milhões de anos, tinha pouco mais de um metro de altura, cérebro pequeno e braços ainda adaptados para subir em árvores. Mesmo assim, sua pelve e seus joelhos mostram que ela já caminhava sobre duas pernas. Seu corpo reunia características antigas e novas: ainda era capaz de se refugiar nas árvores, mas já se deslocava pelo chão de maneira bípede.
Quando várias humanidades dividiam o planeta
O Homo sapiens surgiu na África há aproximadamente 300 mil anos, mas não era a única espécie humana existente. Neandertais viviam na Europa e em partes da Ásia, denisovanos ocupavam regiões asiáticas e o pequeno Homo floresiensis habitava uma ilha da Indonésia. Esses grupos conviveram com nossa espécie e, em alguns casos, tiveram filhos entre si. Por isso, muitas pessoas atuais com ancestralidade fora da África carregam pequenos trechos de DNA neandertal, enquanto populações da Oceania também preservam herança denisovana. Eles desapareceram como grupos distintos, mas parte de sua história continua presente em nós.
Nosso corpo ainda guarda lembranças dos ancestrais
Não é necessário visitar um museu para encontrar vestígios da evolução. Basta observar o próprio corpo que funciona como um pequeno arquivo de evolução.
O cóccix, no fim da coluna, é formado por vértebras reduzidas ligadas à cauda de ancestrais muito antigos. Os arrepios também são uma herança: em animais peludos, levantar os pelos ajuda a conservar calor e a parecer maior diante de ameaças.
Outras pistas são ainda mais curiosas. Algumas pessoas conseguem mexer as orelhas porque ainda possuem músculos usados por outros animais para localizar sons. No canto interno dos olhos existe a plica semilunar, resto de uma terceira pálpebra presente em aves e répteis. No antebraço, o músculo palmar longo pode simplesmente não existir em algumas pessoas sem causar qualquer problema. Para procurá-lo, basta encostar o polegar no dedo mínimo e dobrar o punho: se um tendão aparecer no centro, você provavelmente o possui.
Os dentes do siso são outro vestígio de um tempo em que nossos ancestrais tinham mandíbulas maiores e mastigavam alimentos mais duros. O apêndice, por sua vez, já foi considerado inútil, mas hoje se sabe que participa do sistema imunológico e pode ajudar a preservar bactérias benéficas do intestino. Até os músculos que movimentam o couro cabeludo, os pelos espalhados pelo corpo e a capacidade de formar “pele de galinha” mostram que o corpo humano não foi criado do zero: ele foi adaptado, peça por peça, a partir de estruturas muito mais antigas.
Então, afinal, somos macacos?
Não exatamente. Somos primatas e pertencemos ao grupo dos grandes símios, ao lado dos chimpanzés, bonobos, gorilas e orangotangos. Portanto, somos parentes dos animais que popularmente chamamos de macacos, mas não descendemos de nenhuma espécie que exista hoje.
Humanos e outros primatas vieram de ancestrais em comum e seguiram caminhos evolutivos diferentes. Os chimpanzés não são nossos antepassados, mas nossos parentes vivos mais próximos. Nossa espécie é apenas um dos muitos ramos dessa antiga árvore familiar.
No fim, a pergunta mais importante talvez não seja se viemos dos macacos, mas o que essa história revela sobre nós. Somos primatas, carregamos no corpo marcas de ancestrais muito antigos e pertencemos à mesma árvore da vida que todos os outros animais. A evolução não nos colocou acima da natureza. Apenas nos lembra de que sempre fizemos parte dela.