Afinal, a zebra é branca com listras pretas ou preta com listras brancas?
Coluna Papo Verde com Dani Fumachi
Por Dani Fumachi
A gente cresce, aprende um monte de coisas, troca os desenhos animados pelos boletos, mas continua sem saber ao certo se a zebra é branca com listras pretas ou preta com listras brancas. Talvez essa dúvida sobreviva por tanto tempo porque, quando olhamos para uma zebra, as duas cores parecem estar no mesmo lugar. Não há um fundo evidente nem uma estampa por cima. O branco e o preto se alternam pelo corpo inteiro, contornam o pescoço, atravessam as pernas, chegam ao rosto e terminam numa confusão tão bem organizada que fica difícil saber onde uma cor começa e a outra termina.
A resposta mais aceita pela biologia é que a zebra é preta com listras brancas. A explicação está na melanina, pigmento responsável pelas tonalidades escuras da pele e dos pelos. Durante o desenvolvimento do animal, células chamadas melanócitos produzem esse pigmento. Nas regiões onde surgem as faixas brancas, porém, a pigmentação dos pelos é interrompida. Isso quer dizer que a zebra não fabrica propriamente uma tinta branca para desenhar as listras; o branco aparece justamente nos pontos em que a melanina deixa de ser depositada. A pele sob a pelagem é predominantemente escura, outro indício de que o preto é sua cor de base.
Resolvida a pergunta, surge outra ainda mais interessante: por que a zebra tem listras?
Durante muito tempo, a explicação mais conhecida foi a camuflagem. Quando várias zebras correm juntas, o movimento das faixas poderia embaralhar a visão de leões, hienas e outros predadores, dificultando a escolha de um único animal para o ataque. Também se acreditou que o contraste entre o preto e o branco ajudasse a controlar a temperatura corporal. As faixas escuras absorvem mais calor, enquanto as claras permanecem relativamente mais frescas, o que poderia provocar pequenas correntes de ar junto à pelagem. As duas hipóteses ainda são discutidas, mas os estudos realizados nas últimas décadas colocaram em evidência um inimigo bem menor e aparentemente menos ameaçador: as moscas que se alimentam de sangue.
Mutucas, moscas-tsé-tsé e outros insetos que se alimentam de sangue não causam apenas incômodo. Eles podem transmitir doenças e provocar perda de sangue, infecções e enfraquecimento. Pesquisadores observaram que esses insetos têm mais dificuldade para pousar sobre superfícies listradas. Em um dos experimentos, cavalos receberam capas com estampas semelhantes às de uma zebra. As moscas continuaram se aproximando, mas muitas não conseguiram reduzir a velocidade ou calcular corretamente o pouso. O contraste das listras parece atrapalhar o sistema visual do inseto nos últimos instantes do voo. Assim, aquilo que enxergamos como uma bela estampa pode ser, na prática, uma espécie de repelente visual aperfeiçoado ao longo de milhões de anos.
Outro detalhe curioso é que não existem duas zebras com desenhos exatamente iguais. A largura, a posição e o encontro das faixas formam um padrão particular em cada indivíduo, quase uma impressão digital estampada sobre o corpo.
Apesar do parentesco próximo com cavalos e jumentos, as zebras nunca foram domesticadas. Não foi por falta de tentativa. Ao longo da história, algumas chegaram a ser treinadas para puxar carruagens ou carregar pessoas, mas a experiência nunca se transformou em uma prática comum. Zebras são ariscas, imprevisíveis diante de ameaças e donas de uma mordida forte. Também possuem um coice capaz de ferir gravemente um predador.
No fim das contas, a zebra é preta com listras brancas, mas essa resposta encerra apenas a dúvida e abre todas as outras. As faixas que vemos em seu corpo falam sobre pigmentação, nascimento, parentesco, defesa, doenças, predadores e sobrevivência. Falam também de uma natureza que não precisa escolher entre ser bonita e ser funcional, porque frequentemente consegue ser as duas coisas ao mesmo tempo.
Talvez seja por isso que continuamos olhando para uma zebra por mais tempo do que olharíamos para um cavalo de uma só cor. Seus contrastes prendem a atenção, confundem os olhos e escondem uma longa história evolutiva. A pergunta parece simples: branca ou preta? A resposta também poderia ser. Mas a zebra, felizmente, é muito mais interessante do que isso.