A arte de sobreviver ao frio: conheça as técnicas de sobrevivências dos répteis durante o inverno
Coluna Papo Verde com Dani Fumachi
Por Dani Fumachi
Enquanto a gente corre para colocar mais uma manta no sofá e o cachorro procura o cantinho mais quente da casa, tem um grupo de animais que encara o inverno com uma estratégia totalmente diferente: os répteis. Lagartos, cobras, jacarés, tartarugas e iguanas são animais ectotérmicos, ou seja, não produzem calor interno como nós, mamíferos. O termostato deles é o ambiente. Por isso, o inverno é o maior desafio do ano para esse grupo, e a forma como lidam com isso é uma verdadeira aula de biologia.
A primeira diferença importante está no nome do processo. Todo mundo fala em hibernação quando pensa no urso, mas réptil não hiberna, ele bruma. A hibernação é um sono profundo de mamífero, com coração lento, temperatura corporal baixa e metabolismo quase zero, do qual o animal não acorda. A brumação, por outro lado, funciona como um modo econômico. O réptil desacelera, mas não desliga, de forma parecida com o modo avião do celular. Durante esse período, o metabolismo cai até 70%. O coração pode reduzir de 40 batimentos por minuto para apenas 8. O sistema digestivo para completamente, porque as enzimas param de funcionar abaixo de 15°C. Se houver comida no estômago, ela apodrece. Por isso, eles jejuam antes do frio chegar. O cérebro entra em standby e o consumo de água diminui, já que os rins trabalham no mínimo. Mesmo letárgicos, eles podem acordar se o dia esquentar, sair para tomar sol em tardes mais amenas e voltar para o esconderijo depois.
Sem uma fornalha interna, o réptil se torna especialista em buscar calor no ambiente. Essa estratégia se chama termorregulação comportamental e acontece de três formas principais.
Banho de sol
Você já viu lagartixa parada na pedra às dez da manhã? Ela se posiciona de lado para os raios solares, escurece a pele para absorver mais calor e abre a boca para trocar ar quente. Uma calanguinha pode subir a temperatura do corpo de 18°C para 35°C em trinta minutos apenas com a luz do sol.
Busca por abrigo
Quando o sol some, eles desaparecem para debaixo de troncos, tocas, fendas de pedra, ocos de árvore ou se enterram na lama. O solo a cinquenta centímetros de profundidade quase não varia de temperatura no inverno. Lá embaixo pode fazer 18°C mesmo quando fora está 8°C, o que evita o congelamento. Jacarés do sul do Brasil, por exemplo, cavam tocas de brumação na margem do açude e permanecem ali por meses.
Redução de superfície
As cobras se enrolam em uma bola bem apertada para perder menos calor. Algumas espécies chegam a se juntar em grupos de dezenas, formando um verdadeiro cobertor vivo.
A alimentação também muda por completo no outono e inverno, porque um réptil frio não consegue digerir. A temperatura ideal para a digestão de uma cobra fica entre 28°C e 32°C. Abaixo de 20°C o intestino trava. Se ela comer um rato em maio, esse alimento permanece no estômago até setembro, fermenta e causa infecção e morte. Por isso, antes do frio eles entram em hiperfagia, uma fase em que comem muito para estocar gordura. Lagartos podem aumentar 20% do peso corporal só em reserva. Durante a brumação não há ingestão de alimento. Eles vivem exclusivamente da gordura acumulada, de forma muito mais lenta que um urso. Quando a temperatura passa dos 20°C por vários dias seguidos, o metabolismo volta ao normal e a caça recomeça. Nesse intervalo, tartarugas podem perder até 40% do peso corporal.
Algumas espécies de clima temperado desenvolveram defesas extras contra o frio extremo. É o caso da Thamnophis sirtalis, a cobra-liga americana, que produz glicose e glicerol no sangue. Essa substância funciona como o anticongelante do carro, baixando o ponto de congelamento do líquido corporal. Esses animais conseguem tolerar até 50% do corpo congelado e descongelar na primavera ainda vivos. No Brasil isso não ocorre, porque nosso inverno raramente atinge temperaturas de congelamento. Já as tartarugas de água doce adotam outra saída: param de respirar pelo pulmão e passam a respirar pela pele e pela cloaca, retirando oxigênio da água gelada mesmo enterradas na lama.
Entender a brumação vai além da curiosidade biológica. Os répteis são bioindicadores sensíveis das mudanças climáticas. Um inverno apenas dois graus mais quente que o normal pode fazê-los acordar da brumação antes do tempo. O problema é que ainda não há inseto, fruto ou comida disponível. Eles gastam a reserva de gordura e morrem de fome antes da primavera chegar. Além disso, esse conhecimento salva vidas. Todo ano pessoas encontram uma cobra parada no inverno e acham que está morta, quando na verdade ela só está brumando. Se for aquecida, volta à atividade.
A lição final que os répteis deixam é que eles não lutam contra o inverno. Eles se adaptam. Desaceleram, economizam, se escondem e esperam, sem gasto de energia à toa. Fica a dica: se você viu um lagarto ou uma cobra muito parado no frio, não mexa. Provavelmente ele só está no modo econômico. A primavera dele vai chegar em breve.