Caminho da Fé – Parte Final: Trezentos e dezoito quilômetros que te levam à Aparecida
Onze dias após o início, os Romeiros de Maria terminam a peregrinação chegando ao Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida
Foto: Arquivo Pessoal
Por Márcio Roberto Egidio
Nosso penúltimo dia de caminhada terminou por volta das 16h com a chegada no Restaurante e Pousada Balaio da Roça, administrado pelo amigo Bruno Ribeiro e sua simpática família, localizado no Distrito de Pedrinhas, em Guaratinguetá. A pousada fica a quinhentos metros fora do trecho do Caminho, contudo, aos que preferirem, a pousada faz o transporte nesse trecho se o peregrino assim solicitar.
Como já havíamos superado tantas coisas nesse dia, não foi essa distância que nos fez pedir auxílio e seguimos caminhando até lá. Além de pousada, o local conta com um restaurante muito bem avaliado em toda região e a família capricha no tempero e serve, segundo o pessoal, a melhor costela assada de toda região, tradição e dom herdados por Bruno de seu saudoso pai.
A pousada é bem mais recente que o restaurante, mas, caiu no gosto do peregrino pela receptividade dos proprietários, qualidade da comida, ambiente familiar e pelas belas instalações tanto do restaurante quanto dos quartos, ah, tem até uma belíssima piscina para refrescar.
Bem alimentados, fomos ao descanso dos justos sendo que a expectativa e a alegria cresciam a cada minuto por saber que, no dia seguinte, chegaríamos ao Santuário, à Casa da Mãe.
EM POTIM
Depois de um maravilhoso café e promessa de retornarmos ao Balaio da Roça, nos despedimos de Bruno e família e seguimos de volta ao Caminho. Cajados no trecho final que começa com chão batido por vários quilômetros. A paisagem é totalmente diferente dos dias anteriores já que o vale é uma planície gigantesca que fica entre as serras da Mantiqueira e do Mar.
Cerca de mais ou menos dez quilômetros de peregrinação deixávamos definitivamente Guaratinguetá para adentrarmos em Potim, a última localidade a transpor antes de chegarmos à Aparecida.
Potim é conhecida como a "Terra do Artesanato" por sua tradição em peças de taboa e um ponto importante no Caminho da Fé, ligando Guaratinguetá a Aparecida. Fundada a partir de um povoado ligado à igreja do Bom Jesus, Potim emancipou-se de Guaratinguetá em 1991 e, de acordo com levantamento de 2024, a cidade conta com uma população de quase 21 mil habitantes.
A origem do nome Potim está ligada a língua indígena Nheengatu, língua geral dos tupis-guaranis, que comporta o significado "camarão". Supõem-se a existência de um grande número de camarões de água doce, existentes no ribeirão denominado Potim.
A GRANDE SURPRESA

Na Capela da Misericórdia, em Potim, fomos recepcionados com muito carinho pelos Anjos do Caminho
Ao aproximarmos da Capela da Misericórdia, que fica na margem direita da estrada, os Romeiros de Maria foram surpreendidos e abordados pelos voluntários do projeto Anjos do Caminho e ninguém conseguiu conter a emoção sendo que caímos todos aos prantos, um choro leve, reconfortante, de alegria...
A capela foi construída em agradecimento por uma graça alcançada e funciona também como ponto de apoio, oferecendo água, banheiro e um espaço para descanso e oração aos caminhantes.
O ponto emocionante de tudo isso é no momento da aproximação dos peregrinos. De longe, o grupo já os visualiza e a partir daí a emoção toma conta. Com uma potente caixa amplificadora de som, um lindo louvor começa a ser tocado e os voluntários do grupo praticamente cercam a estrada, cantando, dançando e recepcionando a todos com um caloroso abraço de boas-vindas.
Confesso que somente de escrever esse texto e relembrando nossa chegada, os olhos marejam e insistentes gotas de lágrimas começam a escorrer pelo rosto. O carinho despendido por eles, a forma fraternal que eles despendem e, aliado a isso, a mente nos surpreende com um turbilhão de imagens e cenas avistadas e vividas nos últimos dez dias fazendo com que tudo isso se manifeste e se transborde através de lágrimas e mais lágrimas.
Se o leitor quiser saber um pouco mais desse trabalho voluntário, existem inúmeros vídeos da passagem dos peregrinos pelo lugar no YouTube e vale muito a pena dar uma conferida. Tenho certeza que também irá se emocionar bastante. A música, do cancioneiro católico agora não sai da mente... “vem, vem, vem, Espírito Santo, transforma minha vida, quero renascer...”, lindo demais!
FALTA POUCO
Recompostos da emocionante surpresa, deixamos a Capela da Misericórdia e nos despedimos dos Anjos do Asfalto, afinal, restavam pouquíssimos quilômetros para chegarmos à casa da Mãe e a ansiedade ajudava a rebater qualquer tipo de cansaço.
Andamos um bom trecho em pista asfáltica exigindo bem mais atenção de nossa parte até a chegada na área urbana de Potim onde existe uma movimentação gigante de ônibus e pessoas até pela proximidade do lugar com o Santuário Nacional, que já havíamos avistados alguns quilômetros atrás.
O marco da passagem por Potim é a travessia da ponte do Rio Paraíba do Sul. A ponte é fechada para veículos automotores e, por isso, estávamos muito seguros para apreciar a belíssima paisagem que o enorme rio nos proporciona.
Além disso, a placa mais aguardada desde a primeira, lá em Águas da Prata, que marcava o quilômetro 316, já que saímos do quilômetro 318 e, como expliquei no começo, a contagem é feita de forma decrescente e de dois em dois quilômetros, essa era muito significativa já que estávamos transpassando a última delas, que marcava o quilômetro dois, portanto, estávamos a apenas dois mil metros da nossa chegada.
ALELUIA!
Por volta das 11h30 da sexta-feira, dia 24 de outubro, os Romeiros de Maria chegavam ao Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida. Daniel colocou aquela Ave Maria mais emocionante do mundo e, já na calçada do Santuário, percebia-se nos olhos dos meus colegas, principalmente Carlão, Edilene e Caio a emoção de ter completado o Caminho da Fé e chegado, sãos e salvos à Casa da Mãe. Não que eu e Daniel também não estivéssemos, porém, como já havíamos passado por isso dava pra perceber a maior intensidade por parte dos novatos.
Fotos, abraços e muita choradeira depois, seguimos à Basílica onde visitamos a imagem de Nossa Senhora para orações e agradecimentos. Posteriormente fomos providenciar nossos certificados de conclusão do Caminho e ficamos livres para passearmos na praça de alimentação e retorno à Itatiba chegando por volta das 18h.
MINHA EXPERIÊNCIA
Não iria comentar, mas, não resisti! Ouvi numa rede social qualquer, uma fala onde a pessoa dizia “O primeiro Caminho, faça por curiosidade, pra ver se consegue; o segundo, aproveite melhor as paisagens, curta sua passagem e, finalizando, o terceiro faça pelo espiritual, para sua aproximação com as coisas que não são deste mundo”!
Como era meu terceiro, apostei nisso e, desde o início, busquei um contato íntimo com Deus pedindo que, de alguma forma, Ele mostrasse que estaria conosco nessa jornada. Pedido feito, bora ficar atento aos sinais em meio a natureza.
Poderia ser coisa da minha cabeça, por isso, não contei nada ao grupo, mas, desde o primeiro dia, todos os dias, sem exceção, avistava sempre um ou dois canários que nos acompanhavam um certo tempo e depois iam embora. Eu não buscava sinais? Então pensava que talvez fosse esse e assim foram todos os dias até a quinta-feira, um dia antes da chegada.
Na sexta, último dia, pensava que se visse mais um canário com certeza seria a confirmação de que Deus nos demonstrava estar conosco o tempo todo. Porém, em 22 quilômetros andados não avistei nada, vi uma infinidade de aves, mas não canários!
Lamentei, contudo, conforme declamamos em nossas orações “Seja feita à Vossa Vontade...”, então, com resiliência, agradeci da mesma forma. Mal sabia que ainda restava um episódio nessa peregrinação.
Seguíamos para a praça de alimentação quando avistei um banco vazio em meio à multidão e sentei para descansar enquanto aguardava os demais. Olhando para baixo e para o nada ao mesmo tempo, lembrei-me dos canários e fiquei um pouco entristecido e foi nesse momento que, do nada, veio um cão preto, de médio porte que antes de eu percebê-lo, já havia me visto e sentado bem a minha frente e me encarava sem latido ou expressão de raiva, nada, bem de boa.
Ele simplesmente esperou pacientemente eu avistá-lo e quando percebeu que eu o havia visto, ele levantou sua pata direita e a estendeu para que eu desse um ‘aperto de mão’, baixando sua cabeça como um sincero cumprimento. Feito isso, ele encostou a cabeça nas minhas pernas para que eu fizesse um afago e, logo em seguida, sumiu em meio a multidão da mesma forma em que apareceu segundos atrás.
Pessoas próximas e emocionaram e eu, acreditem vocês ou não, tive a certeza, através desse episódio que Deus sempre esteve conosco, nos observando, nos guardando e, por que não, nos abençoando pela conclusão do nosso projeto.
Agradeço a Deus e a Nossa Senhora pela proteção não só no caminho, mas, por cuidar de todos nós. Aos meus colegas, Daniel, Carlão, Caio e Edilene, aos amigos que me ajudaram, eles sabem quem são e a direção do JORNAL DE ITATIBA por nos permitir, através desse generoso espaço, contar a realização desse sonho que é poder fazer o Caminho da Fé. Finalizando agradeço a todos vocês que dedicaram seus preciosos tempos para fazerem conosco essa linda viagem através da leitura! Até uma próxima e meu MUITO OBRIGADO!

A Credencial do Peregrino e o Certificado do Caminho da Fé ratificam nosso sucesso. Missão dada, missão cumprida