Caminho da Fé – parte 7: Trezentos e dezoito quilômetros que te levam à Aparecida
Na descida, várias paradas para fotos nos mirantes que mostram toda beleza da Serra da Mantiqueira, que ficava para trás e a chegada a baixada do Vale
Foto: Arquivo Pessoal
Por Marcio Egidio
No final da tarde do dia 22 de outubro, uma quarta-feira, os Romeiros de Maria terminavam mais um dia de caminhada parando na altura do quilômetro 81, mais precisamente na pousada Recanto do Peregrino, do casal de amigos Rita e Gilberto Marques, na bela e turística Campos do Jordão.
O local já havia despertado interesse em 2024, no meu segundo Caminho da Fé, contudo, não consegui vaga e o encontro com o amigo Gilberto ficou para este ano. Como também é peregrino, nosso anfitrião conhece bem das necessidades e anseios de quem está na caminhada e, por isso, montou uma pousada que atende 100% das expectativas do peregrino.
Ambiente muito familiar, caseiro e reconfortante. Os aposentos são novos, limpos e com uma decoração de muito bom gosto. Dentro da propriedade, uma área aberta, comunitária e com uma geladeira bem abastecida deu-nos a sensação de conforto e de que valeu a pena acertamos nossa reserva no Recanto.
O frio se fazia constante durante todo o dia, contudo, no cair da tarde o clima, que é predominante frio na região de Campos do Jordão, mostrou toda sua força ao nosso grupo paulista não muito acostumado com aquela temperatura.
O vento e a gelada sensação térmica parecia chegar aos nossos ossos então, depois de um bom dedo de prosa com nosso anfitrião Gilberto, algumas cervejas e lembranças entre o grupo, melhor era descansar e esperar o horário do jantar.
Por indicação da dona Rita, solicitamos nosso jantar que veio através de um serviço de motoboy. Os preços naquela região de fato não são dos mais convidativos, mas, alimentar-se era preciso, então, bora comer e descansar para o dia seguinte.

Último cafezinho na Pousada Santa Maria da Serra antes de descer Pedrinhas e finalmente chegar ao Vale do Paraíba
GUARÁ OU PINDA
Chegando em Campos do Jordão, os peregrinos devem tomar uma importante decisão já que o Caminho da Fé oferece três opções para se chegar ao Vale do Paraíba e posteriormente ao Santuário de Aparecida.
Duas das opções passam por Pindamonhangaba. A primeira atravessa a área central da cidade e posterior chegada à Aparecida por Roseiras e a segunda via Ribeirão Grande que dá acesso à cidade de Potim e depois Aparecida.
A terceira finalização é a que sempre optei nos meus dois Caminhos anteriores, ou seja, descendo sentido Guaratinguetá, atravessando o Bairro Gomeral e descendo a serra pela Estrada Municipal das Pedrinhas e, após informar aos demais membros do grupo, essa foi a opção escolhida para mais um dia de caminhada.
PERIGO
Para os peregrinos que, assim como nós, optaram por descer por Guaratinguetá, o próprio guia do Caminho da Fé traz uma nota que merece atenção especial. Trata-se de alguns quilômetros de trecho asfáltico, sem acostamento e cheio de curvas, portanto, não aconselhado a seguir andando até a entrada do Parque Estadual de Campos do Jordão, mais conhecido como Horto Florestal, com trecho em área de mata e chão batido.
Muitos caminhantes não levam a sério o alerta e seguem a pé, contudo, nosso grupo resolveu não abusar da sorte acatando as orientações do guia da Associação do Caminho da Fé, até porque, vários incidentes e acidentes graves foram registrados nesse trecho envolvendo peregrinos e bicigrinos, fatores determinantes para o importante alerta.
Para se fazer esse trecho, que tem em média quinze quilômetros, o peregrino pode optar pelo carro (caso tenha apoio), de ônibus coletivo pegando a linha sentido horto e também contratando um transporte alternativo oferecido pelos nativos ou por aplicativo.
Como contávamos com apoio da nossa querida Edilene, foi ela quem nos ajudou a superar o trajeto, no volante da Pajero TR4 que também mostrou sua força e potência já que, além das malas e coolers, também arcava com o peso do “quarteto fantástico”, comigo, Caio, Carlão e Daniel. Peso e altura para todos os gostos!
O HORTO
O Horto Florestal de Campos do Jordão (Parque Estadual Campos do Jordão - PECJ) é a mais antiga Unidade de Conservação de SP, criado para proteger a Mata de Araucárias, oferecendo natureza, lazer e história com trilhas (como a do Sapucaí), arborismo, tirolesa, pedalinho, gastronomia (restaurantes como Dona Chica, Café do Pato) e atividades para famílias, sendo um importante refúgio de Mata Atlântica com rica fauna e flora, com funcionamento diário e ingresso pago.
Entretanto, nosso objetivo era sim de aproveitar o ar puro, vislumbrar a belíssima paisagem e o contato direto com a natureza mas, principalmente transpor o trecho para chegarmos ao nosso destino.
Saímos bem cedo do Recanto do Peregrino após nos despedirmos do casal Rita e Gilberto e, aquecidos pelo sistema de ar da TR4, apreciamos as belíssimas construções na área central da turística e gelada Campos do Jordão até a entrada do Horto quando desembarcamos para retomar a caminhada com os termômetros marcando 3ºC.
Sabíamos que, nesse dia, desceríamos a Serra de Pedrinhas no Gomeral e terminaríamos nossa caminhada já no planíssimo Vale do Paraíba, porém, no Caminho da Fé nada é assim tão fácil, antes, nosso último grande obstáculo, a subida do Horto.
A subida merece respeito já que conta com um ganho de elevação de 423 metros superados após um percurso de 5,8 quilômetros, ou seja, mais uma luta a ser vencida. Como chegamos cedo, passamos pelo percurso com o clima bem ameno, muito vento e até neblina.
As orações e as conversas entre o grupo ajudaram-nos a superar os quase seis quilômetros de subida até que de forma bem tranquila e, já no alto, a visão não nos enganava e tivemos a certeza de que havíamos superado nosso último grande aclive sendo que dali para frente era só alegria até porque não havia mais onde subir naquele trecho, chegávamos literalmente ao topo final do Caminho.
“NÓIS VAI DESCER”
Por volta das 10h os Romeiros de Maria chegavam a belíssima Pousada Santa Maria da Serra no Bairro Gomeral para carimbos e um descanso mais prolongado já que estávamos à porta da descida de Pedrinhas.
Se por um lado subir a serra da Luminosa é uma atração, descer Pedrinhas não é menos emocionante por vários aspectos. Como o próprio nome revela, a estrada é de terra e coberta de pedras soltas que exige cuidado por parte dos peregrinos e, principalmente, aos bicigrinos que descem em maior velocidade e não raramente são surpreendidos por essas pedras podendo ocorrer quedas gravíssimas na região.
Além disso, são oito quilômetros morro abaixo com altimetria negativa de 834 metros que judiam muito, mas muito mesmo dos joelhos. A descida é totalmente de terra, contudo, a Prefeitura de Guaratinguetá está fazendo investimento na região e muitos lugares já contam com bloquetes de concreto que ajudam bastante.
Se falamos das desvantagens nossa obrigação também é enfatizar as coisas boas do trecho. A primeira delas é a paisagem surreal que a altura da serra nos proporciona do belíssimo Vale do Paraíba, lá embaixo, assim como conseguimos ter nossa primeira visão, a olho nu, do Santuário de Aparecida, momento que a emoção já aflora e toma conta de todos nós.
A descida é sinuosa e demorada com muitos mirantes tanto do Vale, bem mais abaixo, como da encosta da Serra da Mantiqueira que, quanto mais descemos, mais ela “cresce” em altura transformando-se num verdadeiro paredão aos nossos olhos, que vai ficando para trás.
Passamos pela Trutaria Bela Vista mas a parada foi no Café no Caminho, que conta com um ambiente aconchegante, atendimento de primeira e uma iguaria não encontrada em nenhum lugar até então, um lanche completo envolto a um gigante pão de queijo. Lanche é bom, pão de queijo também, agora imagina um feito com pão de queijo? Como diz o meme nas redes sociais: “O miserável é um gênio”! E faz todo sentido porque a iguaria é boa demais assim como o café expresso também.
Depois de acalentar o estômago com aquela refeição maravilhosa e aquele cafezinho incrível, cajado na estrada de novo já que ainda restavam cinco quilômetros para nossa chegada a pousada Balaio da Roça, onde nosso amigo Bruno Ribeiro e sua família já nos aguardava.
TERRAS PLANAS
Mesmo cansados depois daquela subida de quase seis quilômetros em Campos do Jordão e oito de descida frenética em Guaratinguetá, aproveitamos o trecho final para curtir a paisagem e, já em terras planas, caminhamos ao lado de um pequeno riacho que insistia em convidar-nos a molharmos pelo menos os pés, contudo, o cansaço começava a bater e depois de passarmos defronte a famosa Pousada do Agenor, encontramos nosso refúgio chegando finalmente ao Balaio da Roça, ponto final do dia.
Aproveitamos nossa última noite do Caminho da Fé na pousada e, no dia seguinte, chegaríamos ao Santuário de Nossa Senhora Aparecida que já estava pertinho, a 22 quilômetros de distância, contudo, essa é uma outra história...

No frio de Campos do Jordão seguimos até o Horto a bordo da TR4 que mostrou sua força porque a galera é ‘grande’
PS.: Tenho que corrigir meu texto do capítulo passado pois fui interpelado pelo grupo, já que eles não perdem um capítulo! Na subida do Cantagalo, antes da Luminosa, foi eu e o Carlão que avistamos o lobo-guará e, no texto, erroneamente informei que era o Daniel. Isso causou “revolta” na turma e, por isso, segue a correção!